O presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, está prestes a fazer seu maior discurso até agora nesta sexta-feira (28), mas os investidores podem não ouvir o que desejam.
Banqueiros centrais, ministros das finanças e formuladores de políticas de todo o mundo se reunirão no simpósio econômico anual do Federal Reserve de Kansas City, em Jackson Hole, Wyoming. Por mais de duas décadas, o líder em exercício do Fed sinalizou para onde os juros estão indo no discurso de abertura do evento.
Mas Warsh deve romper com a tradição — um movimento que pode não agradar aos investidores.
Desde que assumiu a presidência do Fed há três meses, Warsh parou de entregar de bandeja a Wall Street pistas sobre o que o banco central dos EUA fará a seguir. Enquanto isso, a inflação subiu e alguns colegas de Warsh já estão pedindo para elevar os custos de crédito pela primeira vez desde julho de 2023.
Se Warsh mantiver sua posição e permanecer em silêncio sobre os juros nesta sexta, isso deixará claro aos investidores que eles terão de conviver com menos orientações.
“Não espero que nenhum sinal saia do discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole”, disse Jan Groen, economista-chefe dos EUA na firma financeira global Societe Generale. “E se eu estiver certo, acho que o mercado não vai gostar.”
Logo após a coletiva de imprensa pós-reunião de Warsh no mês passado — na qual ele permaneceu em silêncio sobre os juros — os rendimentos dos títulos de longo prazo dispararam, em um possível sinal de que os operadores estão preocupados com o fato de o Fed não fazer o suficiente para conter a inflação persistentemente elevada.
O aumento dos déficits governamentais e a maior oferta de títulos corporativos, entre outros fatores, elevaram os rendimentos dos títulos nos últimos meses. Isso significa que o governo federal continuará fazendo enormes pagamentos de juros que só vão se somar à sua pilha de dívida de US$ 40 trilhões.
Warsh nem sequer discutiu o que o faria mudar de posição em relação aos juros, um conceito conhecido como “função de reação”.
Uma função de reação é quando um banco central explica “o que está observando, como interpreta a economia, como pondera riscos concorrentes e quais desenvolvimentos mudariam seu julgamento”, explicou a Brookings Institution em uma análise no mês passado. Warsh recusou repetidamente descrever sua função de reação quando questionado por jornalistas.
Isso é diferente do “forward guidance”, que é uma projeção mais explícita do caminho para a taxa de juros do Fed caso a economia evolua conforme o esperado.
Em um evento em julho em Sintra, Portugal, Warsh disse que o mercado de títulos é capaz de “entender muito bem” sem uma função de reação. Alguns discordam dessa caracterização.
“O mercado de títulos está realmente buscando no Fed pistas sobre sua função de reação”, disse Ian Kresnak, estrategista sênior de investimentos da Vanguard. “O que está gerando grande parte da volatilidade no mercado de taxas é a incerteza sobre como o Fed vai responder à inflação.”
“O simpósio lhe dá espaço para expor suas visões pessoais”, escreveram investidores da firma financeira Glenmede em uma nota de analista de 24 de agosto. Eles acrescentaram que a revelação da função de reação de Warsh “poderia reduzir parte da incerteza que está impulsionando a recente volatilidade nos mercados de títulos.”
Os dirigentes do Fed estão lidando com o atual aumento da inflação, impulsionado por tarifas, guerra e pelos gastos massivos das empresas em infraestrutura de IA sobre os preços — e se deveriam intervir em breve com aumentos nas taxas de juros.
Os investidores atualmente veem uma chance de aproximadamente 34% de que os dirigentes do Fed elevem as taxas em sua reunião de 15 a 16 de setembro, de acordo com o CME FedWatch. Mas essas probabilidades são maiores nas reuniões subsequentes.
“É uma decisão difícil saber se eles vão ou não aumentar as taxas este ano”, disse Jim Caron, diretor de investimentos de soluções de portfólio da Morgan Stanley Wealth Management.