Por que o Estreito de Ormuz é estratégico na tensão entre EUA e Irã?

Donald Trump afirmou, na madrugada deste sábado (11), que ordenou às Forças Armadas dos Estados Unidos que estejam preparadas para atacar o Irã caso o governo iraniano tente assassiná-lo.

Em publicação feita na rede social Truth Social, Trump declarou que mil mísseis estão prontos para lançamento e apontados para o Irã caso Teerã cumpra essa ameaça.

Fontes disseram à CNN que Israel compartilhou com Washington informações de inteligência indicando que o Irã teria elaborado um novo plano para matar Trump.

No entanto, outras autoridades norte-americanas sugeriram que esse relato poderia ser uma tentativa de Israel de influenciar a decisão de Trump enquanto ele avalia se deve intensificar a ação militar contra o Irã.

Poucas horas depois, o novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, prometeu vingança pelo assassinato do pai, o Ayatollah Ali Khamenei, morto em ataques dos Estados Unidos e de Israel no início da guerra no Oriente Médio. O comunicado foi divulgado pela mídia estatal iraniana.

Programa nuclear iraniano na mesa de negociações

Alexandre Coelho, professor de Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, avaliou que é possível discutir o programa nuclear iraniano dentro das tratativas entre os dois países.

Segundo ele, o Irã sempre declarou que não vai produzir armas nucleares e que o programa tem fins exclusivamente pacíficos.

“É possível discutir sim, até porque essa questão nuclear sempre foi colocada para o Irã não como um problema, mas sim como uma questão em que ele, Irã, sempre declarou que não vai produzir armas nucleares e que a questão nuclear é apenas para fins pacíficos”, afirmou Alexandre Coelho.

Alexandre Coelho lembrou ainda que, na época de Ali Khamenei, foi promulgada uma regra do ponto de vista da religião xiita declarando que o Irã não produziria armas nucleares.

Ou seja, o enriquecimento de urânio não seria para fins letais ou de guerra, mas sim para fins pacíficos ou de geração de energia. Os principais pontos de negociação envolvem prazos para o enriquecimento de urânio, o destino do urânio já enriquecido e os mecanismos de controle internacional sobre essa produção.

O Estreito de Ormuz como ponto nevrálgico do conflito

Para Alexandre Coelho, o verdadeiro ponto de tensão no conflito não é a questão nuclear, mas sim o controle do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% de toda a produção de petróleo mundial.

“O grande ponto agora, de fato, é o controle do Estreito de Hormuz. Esse sim está sendo o ponto nevrálgico”, destacou o especialista.

Segundo ele, o Irã percebeu, após o início do conflito, que o controle do estreito lhe confere um poder de barganha e até financeiro — por meio da cobrança de pedágio — muito superior ao que a questão nuclear poderia oferecer.

O impasse se dá porque os Estados Unidos entendem que navios e petroleiros devem passar pelo estreito sem qualquer cobrança ou bloqueio por parte do Irã.

O Irã, por sua vez, entende que tem direito de administrar e cobrar pedágio, especialmente por considerar que os petroleiros devem navegar pelas milhas náuticas dentro das águas territoriais iranianas, e não pelo centro do estreito.

“O Irã entende que os petroleiros, para passarem lá, devem obter, em primeiro lugar, permissão do Irã”, explicou Alexandre Coelho, acrescentando que essa divergência tem motivado os ataques recentes.

Desvantagem estratégica dos EUA e o custo político para Trump

Alexandre Coelho avaliou que Trump pode ter subestimado a capacidade de resistência do Irã, comparando erroneamente a situação com a captura de Nicolás Maduro na Venezuela — uma operação considerada rápida do ponto de vista militar.

“A questão venezuelana e a captura do Maduro é uma realidade totalmente diferente em relação ao Irã”, afirmou o especialista, citando as vantagens geográficas iranianas no contexto do Estreito de Ormuz.

O especialista apontou ainda que houve interferência de Netanyahu para que Trump entrasse no conflito, com um objetivo claramente israelense, mas sem um objetivo igualmente claro do ponto de vista norte-americano.

Com as eleições de meio de mandato (midterms) se aproximando, um eventual conflito terrestre, com mortes de soldados americanos e gastos elevados, poderia representar um sério desgaste político para Trump.

Além disso, com a morte de Ali Khamenei, é a Guarda Revolucionária que passou a ditar o rumo político do Irã, com uma postura muito mais voltada à imposição do que à negociação. “Os Estados Unidos hoje se colocam numa posição de desvantagem estratégica”, concluiu Alexandre Coelho.

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