Impactos do conflito no Oriente Médio e de mudanças climáticas devem pressionar preços dos alimentos no segundo semestre, segundo avaliação da Abras (Associação Brasileira de Supermercados), divulgada nesta quarta-feira (8)
De acordo com Marcio Milan, vice-presidente da associação, a guerra entre Estados Unidos e Irã e o El Niño previsto para o fim do ano podem elevar substancialmente os preços de itens básicos.
“Isso traz consequências para toda a cadeia de abastecimento”, afirma.
Desde o início do conflito, em fevereiro de 2026, as cotações do petróleo Brent e WTI dispararam, chegando a US$ 120 nas primeiras semanas.
Após quatro meses de guerra, porém, os preços seguem voláteis diante das incertezas sobre a abertura do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto das exportações mundiais de petróleo.
Nesta manhã, com a confirmação de novos ataques e sanções entre os dois países, após uma tentativa frustrada de acordo, os contratos futuros avançavam mais de 5%, se aproximando de US$ 80 o barril e reforçando a volatilidade apontada por Milan.
Outro fator de preocupação é o El Niño, previsto para este segundo semestre. “Existe um aquecimento esperado para este ano, maior do que em 2025”, explicou.
Segundo análise do colunista do CNN Money Pedro Côrtes, no Brasil, o El Niño afeta quatro frentes sensíveis da economia, entre elas a produção de alimentos.
Neste ano, a previsão é que o fenômeno alcance 63% de intensidade. Se confirmado, ficará entre os mais intensos registrados desde 1950.
Milan afirma que a Abras acompanhará o fenômeno de perto, já que a tendência de alta dos preços, que já é intensa, pode se agravar.
“Caso se concretize, o El Niño deve elevar os preços de determinados produtos, como já estamos vendo com a batata, o tomate e a cebola”, explicou.
De acordo com dados do Abrasmercado, indicador que acompanha a variação dos preços da cesta de largo consumo composta por 35 produtos básicos, maio registrou alta de 2,16%, elevando o valor médio da cesta para R$ 854,91. No acumulado do ano, o avanço é de 6,82%.
Entre os produtos que mais pressionaram os preços, o feijão liderou as altas, com avanço de 6,44% em maio, e de 41,09% no acumulado do ano. Na sequência aparecem o arroz (2,16% no mês) e o leite longa vida (0,77%)
O hortifruti também registrou aumentos expressivos, com destaque para a batata (44,69%), o tomate (20,62%) e a cebola (16,80%) na comparação com o mês anterior. No acumulado do ano, as altas chegam a 75,84%, 86,17% e 48,88%, respectivamente.
Regionalmente, o Nordeste apresentou a maior variação de preços, com alta de 2,79%, levando o valor médio da cesta para R$ 772,51. Apesar disso, continua sendo a região com a cesta básica mais barata do país. Já o maior custo foi registrado no Norte, onde a cesta alcançou R$ 939,79, após alta de 1,88%.
Apesar da inflação dos alimentos, o consumo das famílias brasileiras continuou em avanço. Em comparação com o mesmo período do ano passado, o índice de maio de 2026 registrou crescimento de 3,93%.
Na comparação com abril, o indicador avançou 2,23%, enquanto, no acumulado do ano, a alta é de 2,47%. A projeção da Abras é de que 2026 termine com crescimento de 3,2%.
Segundo Milan, os dados refletem também o bom momento do mercado de trabalho.
A renda das famílias também teve papel importante, na avaliação da entidade.
No último mês, foram pagos lotes de restituição do Imposto de Renda, a antecipação do 13º salário, benefícios do Bolsa Família, do PIS/Pasep e pagamentos atrasados do INSS, aumentando significativamente a renda mensal de parte da população, o que pode ter impulsionado o consumo.
“Em um cenário de juros elevados e consumidores mais atentos aos preços, essa previsibilidade de renda ajuda a preservar o abastecimento das famílias ao longo do mês”, explica o vice-presidente.
Segundo ele, maio também contou com um fator sazonal relevante: o Dia das Mães. A data contribuiu para um aumento de aproximadamente 9,5% no consumo durante a semana comemorativa de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025.