Abelardo de la Espriella, candidato da extrema-direita nas eleições colombianas, surpreendeu ao sair à frente no primeiro turno do pleito, superando as expectativas das pesquisas e avançando para o segundo turno ao lado de Iván Cepeda.
O resultado foi analisado por Flávia Loss, professora de Relações Internacionais do Instituto Mauá de Tecnologia, em entrevista ao CNN 360°. Segundo Flávia Loss, o desempenho de Espriella foi uma surpresa, uma vez que diversas pesquisas realizadas na Colômbia apontavam Iván Cepeda com ampla vantagem.
“De fato, foi uma surpresa o resultado, porque a gente vinha de várias pesquisas dentro da Colômbia mostrando que o Iván Cepeda estava bem à frente, muito bem posicionado e surfando nas conquistas que o presidente Gustavo Petro teve nos últimos meses”, afirmou a especialista.
Outro ponto analisado por Flávia Loss foram as declarações que questionaram o resultado do primeiro turno. Gustavo Petro contestou publicamente o resultado, e Iván Cepeda chegou a questionar o pleito antes de recuar.
Em resposta, Abelardo de la Espriella chegou a falar em acionar o Exército para garantir o respeito ao resultado das urnas. A professora classificou a situação como “muito preocupante”, lembrando que, antes do primeiro turno, eram justamente os candidatos de direita que colocavam em dúvida a lisura das eleições.
“Esse tipo de dúvida, quando é colocada, não prejudica só aquela eleição específica, mas sim a democracia como um todo. É muito ruim quando isso acontece, ainda mais num cenário como o colombiano, que tem violência política”, disse.
Para ela, o comportamento de ambos os lados do espectro político nesse sentido “joga uma sombra em cima das eleições e pode desencadear, sim, mais violência”.
Insegurança como fator decisivo
Flávia Loss destacou que, apesar de a política externa de Gustavo Petro ter sido bem avaliada pelos colombianos, o cenário doméstico apresenta desafios significativos, especialmente nas áreas de segurança pública e saúde.
Foi justamente nesse contexto que Espriella encontrou espaço para crescer eleitoralmente. “Existe um cansaço na sociedade colombiana no que diz respeito à insegurança. A gente teve um recrudescimento de atentados contra candidatos, a gente teve ano passado a morte de um pré-candidato à presidência, inclusive, fora outros atentados feitos por ex-integrantes das Farc, principalmente ali no Vale do Cauca”, explicou a professora.
Ela acrescentou que Espriella apresenta um discurso muito duro contra a violência, alinhado ao que ela chamou de “buquelismo” — em referência ao estilo político de Nayib Bukele, de El Salvador.
Tendência regional de radicalização
A especialista contextualizou o resultado colombiano dentro de uma tendência mais ampla observada na América Latina. Para ela, há uma insatisfação crescente da população com discursos moderados, tanto de esquerda quanto de direita.
“A direita tradicional também tem perdido muito no caso da Colômbia”, pontuou, citando como exemplo a candidata Paloma Valencia, do mesmo partido do ex-presidente Álvaro Uribe, que obteve poucos votos e foi bastante criticada.
Flávia Loss alertou ainda que o agravamento da violência tem levado o eleitorado a buscar “soluções mágicas” em candidatos com propostas simplistas para problemas complexos.
“Nas eleições, no debate eleitoral, você não debate a complexidade dos problemas, você oferece soluções rápidas. Essa é uma tendência em toda a América Latina e preocupante também, porque a gente acaba ficando num debate público muito superficial de problemas extremamente complexos”, avaliou.