É hora de virar a chave na gestão das águas urbanas

Há um ditado popular que diz: “o papel aceita tudo”. Mas se fizermos um exercício para além das palavras, logo vamos notar que a tabela de excel também é capaz de tudo incorporar. Números, dados, tabelas e séries históricas são todas informações bem-vindas, claro. Nos ajudam a analisar históricos e recorrências, desenhar projetos, equacionar demandas e calcular investimentos no curto e médio prazo.  

No entanto, em meio a esse emaranhado de dados e simulações, há um ponto de atenção. Explico. É quando essa montanha de informações se desconecta do cotidiano das pessoas e dos territórios ocupados. Do anseio da sociedade civil. E produz tomadas de decisões dissociadas desses sentimentos, daí, temos um problema. Um problemão. 

Quer um exemplo? O manejo de águas pluviais no Brasil.  

Neste século XXI de Inteligência Artificial, de algoritmos, de biociência, já não deveríamos mais dimensionar o saneamento e o manejo de águas pluviais apenas com base em tabelas e séries históricas passadas. Não deveríamos. Mas continuamos fazendo regularmente. 

Por que não deveríamos? Porque vivemos a era da imprevisibilidade climática. E ela nos exige respostas novas, corajosas e verdadeiramente resilientes.  

O modelo tradicional das “soluções cinza” — focado em aprisionar, acelerar e puramente transportar a água de um canto a outro da cidade — mostrou ser não apenas insuficiente, mas muitas vezes prejudicial à sociedade e aos territórios. Ao simplesmente canalizar, encarcerar a água em sistemas de drenagem convencionais, em galerias fechadas ou retificar e impermeabilizar os leitos dos nossos rios urbanos, geramos uma energia cinética – a mesma que um corpo físico possui em movimento – devastadora e que se converte em tragédias repetitivas, enchentes e em colapsos de infraestrutura.  

Sem contar a saúde mental da população, que se vê afastada da “magia”, do movimento e do som das águas urbanas, já amplamente comprovada a respeito das funções terapêuticas de relaxamento e calma. O que dizer então da biodiversidade que, originalmente, circundava leitos de rios urbanos, com fauna e flora que foram expulsas daquele habitat. 

Portanto, o século XXI nos convoca com urgência a uma virada de paradigma fundamental. E em vez de expulsar a água do espaço urbano, precisamos, na verdade, reaprender como acolhê-la. É justamente nessa virada conceitual que ganha força e relevância as Soluções Baseadas na Natureza (SbNs).  

Tecnologias como os Jardins Filtrantes® surgem como alternativas vivas e altamente eficientes para regenerar as cidades e devolver a dignidade aos nossos cursos d’água. Mais do que remediar a poluição difusa que chega aos rios por meio da drenagem convencional e das ligações de esgoto irregulares, esses ecossistemas artificiais absorvem o excesso de chuva, tratam os resíduos de forma natural e devolvem água oxigenada ao meio ambiente, permitindo que a biota – conjunto de seres vivos como fauna, flora e microrganismos que habitam determinada região ou ecossistema – e a vida aquática voltem a prosperar. E o território voltar a respirar, inclusive com a redução de ilhas de calor. 

É a resiliência climática. Curitiba, a capital do Paraná, e seus parques alagáveis, justamente colocam em lados opostos essa força das águas canalizadas. Uma dinâmica pensada nos anos 70 do século passado e que já não atende mais a mudança do clima no Brasil e no mundo. Ativos de infraestrutura que simplesmente escondem e transportam volumes de água que poderiam estar requalificando territórios e contribuindo com o bem-estar da população. 

Desta forma, eventos de grande relevância no setor, como a Feira Nacional de Saneamento e Meio Ambiente (Fenasan), inclusive, tornam-se vitais para impulsionar essa transição cultural e técnica entre gestores públicos, empresas, engenheiros, técnicos de saneamento e a própria comunidade. É preciso levantar a questão e debatê-la. Porque é preciso superar a ultrapassada lógica da conveniência imediata — que tantas vezes prioriza o fluxo rodoviário e a ocupação desordenada em detrimento dos espaços de resiliência hídrica e convivência. Precisamos incorporar o conceito internacional de build back better (reconstruir melhor do que antes), adaptando nossos ativos históricos de infraestrutura para que consigam suportar as novas e intensas dinâmicas do clima. Precisamos ter coragem para inovar com a ciência. Consciência. 

Restaurar a relação das pessoas com os seus rios e com a água não é mero capricho estético ou ambientalismo abstrato. É uma questão direta de saúde pública, equilíbrio térmico e bem-estar mental urbano. Dar espaço para que a natureza respire e cumpra o seu papel é o único caminho viável para garantirmos a sobrevivência, a beleza e a segurança das nossas cidades para as próximas gerações.

Cris Schwanka é CEO da Phytorestore*

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.

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