Crimes de Maio: veja quem é Marcola, líder do PCC e pivô de ataques em 2006

Há 20 anos, em maio de 2006, o estado de São Paulo vivenciou a pior crise de segurança pública de sua história. O estopim dos episódios, que deixaram 564 mortos e 110 feridos em nove dias, foi uma operação do governo estadual que, no dia 11 de maio, transferiu 765 detentos para a Penitenciária de Presidente Venceslau, no interior paulista.

Entre os transferidos estava Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola, apontado pelas autoridades como o líder máximo do PCC (Primeiro Comando da Capital).

Nascido em 25 de janeiro de 1968, em Osasco, na região metropolitana de São Paulo, Marcos Willians é filho de pai boliviano e mãe brasileira. Sua mãe faleceu quando ele tinha apenas nove anos de idade, o que o levou a viver nas ruas e iniciar sua trajetória no crime cometendo pequenos furtos na região da Baixada do Glicério e na Praça da Sé, no centro de São Paulo.

 

O apelido “Marcola” surgiu nessa época, com a junção de seu nome com o vício de inalar cola de sapateiro durante a infância. Mais tarde, ele também ganharia a alcunha de “Playboy” no submundo paulistano, devido ao seu gosto por carros de luxo importados, relógios caros e roupas de grife.

Ascensão no mundo do crime e liderança do PCC

As atividades criminosas de Marcola escalaram de pequenos furtos para grandes roubos, resultando em sua primeira prisão em 1986, por assalto a banco. Ele cumpriu pena no presídio do Carandiru e, em 1993, foi transferido para a Casa de Custódia de Taubaté.

Naquela época, um grupo de detentos, incluindo José Márcio Felício (Geleião) e Dionísio César Leite (Cesinha), começava a formar a organização que daria origem ao PCC.

Descrito como um indivíduo intelectualizado e “devorador de livros”, Marcola foi batizado na facção e ascendeu rapidamente na hierarquia do grupo, tornando-se o segundo em comando.

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Em julho de 1999, o PCC realizou o maior assalto a banco da história de São Paulo, roubando mais de R$ 32 milhões. Dias depois, em 19 de julho de 1999, policiais do Depatri (Departamento de Repressão aos Crimes Patrimoniais) reconheceram Marcola usando um telefone público na Marginal Tietê e o prenderam. Ele não saiu mais da prisão desde então.

A partir de 2002, após conflitos internos, traições e o assassinato de aliados, incluindo a morte de sua ex-mulher e advogada Ana Maria Olivatto, assumiu o controle total e se tornou o líder máximo do PCC.

Sob sua gestão, a facção expandiu para além das prisões, consolidando-se no tráfico de drogas e armas em todo o Brasil e em países vizinhos, desenvolvendo inclusive laços com a máfia italiana. Marcola, no entanto, já declarou ser agnóstico e costuma negar perante a Justiça ser o líder da facção, atribuindo o título a um “exagero” do Estado.

Os Crimes de Maio de 2006

Como resposta à transferência de Marcola e outros líderes para Presidente Venceslau, no interior paulista, em 2006, o PCC ordenou um “salve geral” no dia 12 de maio, véspera do Dia das Mães. A ordem, transmitida por celulares de dentro das celas, deflagrou rebeliões simultâneas em 74 presídios do estado.

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Além das transferências, relatórios investigativos, incluindo estudos da Universidade de Harvard, indicam que a violência foi também desencadeada por extorsões praticadas por policiais civis contra a facção, como o sequestro do enteado de Marcola por investigadores de Suzano, na Grande São Paulo, que exigiam R$ 300 mil de resgate.

Nas ruas, a facção iniciou ataques contra bases, viaturas e delegacias. O estado paralisou com o incêndio de ônibus e a interrupção do transporte público.

A ofensiva do crime organizado foi seguida por uma ação das forças de segurança, atingindo centenas de civis, muitos deles jovens sem antecedentes criminais que habitavam as periferias.

A escalada de terror resultou em 564 mortos em pouco mais de uma semana – 59 agentes públicos e 505 civis. No dia 14 de maio, após reuniões entre representantes do governo paulista e Marcola, os ataques e as rebeliões cessaram de forma coordenada.

A situação prisional atual

Hoje aos 58 anos, Marcola acumula condenações por homicídios, tráfico de drogas, associação criminosa e roubo a banco, com penas que somam mais de 300 anos de reclusão.

Em fevereiro de 2019, ele foi transferido para o Sistema Penitenciário Federal e, desde 2023, encontra-se isolado na Penitenciária Federal de Brasília, uma unidade de segurança máxima.

Em junho de 2025, ao precisar realizar uma ressonância magnética no joelho no Hospital de Base de Brasília, o seu deslocamento contou com um forte esquema de segurança, que mobilizou dezenas de viaturas da Polícia Penal Federal e escolta tática por helicóptero.

Apesar das dezenas de condenações, Marcola obteve uma vitória técnica recente. No início de dezembro de 2025, o juiz Gabriel Medeiros, da Justiça de São Paulo, reconheceu a extinção da punibilidade no conhecido “caso dos 175 réus”, a maior ação penal da história contra o PCC.

Os réus haviam sido denunciados pelo Ministério Público por associação criminosa em setembro de 2013. Pela lei, quando a pena máxima é superior a quatro anos e não excede oito, o Estado tem o prazo de 12 anos para concluir o processo e punir os acusados.

Como o processo ficou paralisado sem uma sentença condenatória até o final de setembro de 2025, prescreveu. O encerramento deste caso não concedeu liberdade ao líder da facção, uma vez que suas outras sentenças continuam em vigor.

Lavagem de dinheiro e a família

Em contrapartida, as ofensivas legais que miram o patrimônio da facção continuam gerando reveses para Marcola e sua família. A 5ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo condenou o líder do PCC a 6 anos e 4 meses de prisão em regime fechado pelo crime de lavagem de dinheiro oriundo do tráfico.

No mesmo processo, sua esposa, Cynthia Giglioli Herbas Camacho, com quem se casou em 2007, foi sentenciada a quatro anos em regime aberto.

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A Justiça comprovou que o casal usava um salão de beleza, o Diva’s Hair, para dissimular valores ilícitos.

Os sogros de Marcola também foram condenados a três anos de reclusão; segundo as investigações, eles atuavam como “laranjas” na aquisição, paga em dinheiro vivo, de uma casa avaliada em mais de R$ 3 milhões em um condomínio de luxo na Granja Viana, na Grande São Paulo.

A disputa pelo sigilo nas visitas

Atualmente, Marcola e o Estado travam um embate jurídico a respeito das regras nas prisões federais. A defesa do chefe do PCC ingressou na Justiça com um pedido para que seus atendimentos com advogados nos parlatórios presenciais ocorram sem a gravação de áudio e vídeo.

O pedido da defesa ampara-se no “precedente Vorcaro”, uma decisão do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), que isentou o ex-banqueiro Daniel Vorcaro desse tipo de monitoramento sob a prerrogativa do sigilo profissional.

A Polícia Penal Federal, porém, defende que as gravações são recursos de inteligência essenciais para impedir que líderes de facções violentas emitam ordens para cometer crimes e estruturar rebeliões do lado de fora das muralhas. O caso agora aguarda análise do Judiciário.

*Sob supervisão de Carolina Figueiredo

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