A possibilidade crescente de um acordo entre os Estados Unidos e o Irã coloca Israel — e, por consequência, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu — em uma posição politicamente delicada. É o que avalia a analista de Internacional da CNN Fernanda Magnotta, na edição desta quinta-feira (28) do CNN 360°.
Ela identificou três frentes pelas quais Netanyahu seria diretamente afetado caso as negociações entre Washington e Teerã cheguem a um desfecho positivo.
A análise foi feita no contexto em que ataques israelenses se intensificam no Líbano — somente nesta terça-feira (26), mais de 30 pessoas morreram — enquanto as tratativas diplomáticas entre as duas potências avançam.
Narrativa estratégica esvaziada
O primeiro impacto apontado por Magnotta diz respeito à narrativa que Netanyahu construiu ao longo do tempo. “Ele construiu toda uma narrativa de que a principal ameaça existencial a Israel é o Irã e o eixo da resistência, e que, portanto, não há uma alternativa que não seja uma pressão militar direta”, afirmou a analista.
Segundo ela, a via diplomática é sempre apresentada por Netanyahu como uma estratégia falha. Assim, na medida em que um eventual acordo se concretize, haveria uma redução significativa do protagonismo político do grupo que ele lidera.
Deslocamento do debate doméstico
A segunda frente identificada pela analista envolve a política interna israelense. Com uma redução da tensão entre Estados Unidos e Irã, a tendência seria um deslocamento da atenção pública para questões mais ligadas diretamente ao governo.
Entre elas, Magnotta cita a condução da guerra em Gaza, a situação dos reféns — ainda muito mal resolvida —, os custos humanos e econômicos do conflito e uma possível responsabilização pelo fracasso da inteligência israelense no 7 de outubro. “O terreno é muito menos favorável para Israel no sentido de controlar a agenda do debate que vai acontecer no país”, disse ela.
Desalinhamento com os Estados Unidos
O terceiro ponto destacado por Magnotta é a redução da utilidade política da escalada militar regional. Com um acordo em vigor, Netanyahu poderia parecer desalinhado até de seu principal aliado, os Estados Unidos.
“Talvez isso faça com que o interesse eleitoral e de popularidade grite aos olhos dos israelenses e ele possa sofrer perda de apoio popular”, avaliou a analista.
Ela lembrou ainda que Netanyahu já enfrenta dificuldades há algum tempo, incluindo denúncias graves de corrupção que ficaram eclipsadas pelo contexto da guerra, além de ter flertado com a derrota no parlamento em algumas ocasiões. Tudo isso, segundo Magnotta, se desenrola às vésperas de eleições em Israel, tornando o cenário especialmente desfavorável para o premiê.