Em um momento de crescente concorrência internacional para os produtos lácteos brasileiros, a busca por eficiência deixou de ser apenas uma questão de redução de custos e passou a envolver qualidade, rastreabilidade e diferenciação.
Nesse cenário, a verticalização da produção e os investimentos em bem-estar animal vêm se consolidando como importantes estratégias da indústria para agregar valor aos produtos e fortalecer a competitividade do setor.
A avaliação é de Angelo Sartor, CEO da RAR Agro & Indústria, que vê na integração de todas as etapas da cadeia produtiva uma das principais ferramentas para garantir padronização e qualidade em um mercado cada vez mais exigente.
Segundo o executivo, a pressão exercida pelas importações, especialmente sobre os produtos de maior valor agregado, exige que as empresas brasileiras busquem diferenciais que vão além do preço.
“Nós somos extremamente verticalizados para garantir o padrão dos nossos produtos durante todo o ano. Produzimos a alimentação dos animais, temos a fazenda de leite e o laticínio próprio. Todo o processo produtivo é controlado para assegurar a qualidade que o consumidor espera”, afirma.
O modelo adotado pela empresa contempla desde a produção da silagem utilizada na alimentação do rebanho até a industrialização dos derivados lácteos. O objetivo é reduzir variáveis que possam comprometer a qualidade da matéria-prima e garantir uniformidade ao produto final.
A estratégia ganha relevância em um mercado no qual consumidores estão cada vez mais atentos à origem dos alimentos e às condições em que eles são produzidos. Para Sartor, controlar todas as etapas da cadeia permite oferecer um produto com maior rastreabilidade e previsibilidade de qualidade.
A operação leiteira da RAR está entre as maiores do país. A empresa possui a maior fazenda de leite do Rio Grande do Sul e figura entre as maiores produtoras nacionais, segundo levantamento do MilkPoint. Atualmente, a produção alcança cerca de 52 mil litros de leite por dia.
O rebanho é composto exclusivamente por vacas da raça holandesa, reconhecida mundialmente pela elevada produtividade leiteira. Segundo Sartor, a produção média é de aproximadamente 36 litros por vaca ao dia, índice considerado elevado para os padrões brasileiros.
Mais importante do que o volume, no entanto, é a consistência da produção. Para garantir a padronização do leite utilizado na fabricação dos queijos e demais derivados, a alimentação dos animais é mantida de forma uniforme durante todo o ano.
“Nós garantimos exatamente a mesma alimentação para os animais durante os 365 dias do ano. Não existe variação na dieta. Isso é fundamental para manter sempre o mesmo padrão de leite e, consequentemente, a mesma qualidade nos produtos”, explica.
A preocupação com a qualidade também está presente na logística da operação. Um dos diferenciais destacados pela empresa é a proximidade entre a fazenda e a unidade industrial.
“A distância entre a ordenha e o laticínio é inferior a um quilômetro. O leite é ordenhado e imediatamente transferido para a indústria. Isso reduz riscos, preserva a qualidade e evita problemas que podem ocorrer em transportes de longa distância”, afirma Sartor.
Além da integração produtiva, o bem-estar animal passou a ocupar papel central na estratégia das empresas que atuam no mercado premium de lácteos.
Nos últimos anos, consumidores, varejistas e até investidores passaram a exigir maior transparência sobre os sistemas de produção utilizados pelas empresas. Questões relacionadas ao manejo dos animais deixaram de ser apenas um tema técnico e passaram a influenciar diretamente a percepção de valor das marcas.
A RAR foi uma das primeiras operações leiteiras da região Sul a conquistar certificação de bem-estar animal, um selo que atesta a adoção de práticas voltadas ao conforto, à saúde e ao manejo adequado dos animais.
“Hoje o consumidor quer saber como o alimento é produzido. O bem-estar animal se tornou uma exigência crescente do mercado. Nós fomos uma das primeiras fazendas leiteiras do Sul do Brasil a obter essa certificação”, destaca.
Segundo Sartor, a certificação vai além de uma ferramenta de marketing. Ela representa um compromisso permanente com padrões produtivos que garantam melhores condições aos animais e contribuam para a qualidade da matéria-prima.
“O consumidor encontra essa informação nas embalagens dos nossos produtos. Existe uma preocupação crescente em entender toda a cadeia produtiva e os cuidados adotados na criação dos animais”, afirma.
Essa mudança de comportamento dos consumidores ocorre em paralelo ao crescimento do mercado de produtos premium. A valorização da origem, da qualidade e dos processos produtivos tem impulsionado categorias como queijos especiais, manteigas artesanais e derivados de maior valor agregado.
Para a indústria, esse movimento representa uma oportunidade importante diante da crescente concorrência internacional. Em vez de competir apenas por volume, muitas empresas passaram a concentrar esforços em produtos diferenciados, capazes de gerar maior valor por unidade comercializada.
“Nossa estratégia é buscar consumidores que reconheçam o diferencial dos produtos. Atuamos em categorias de maior valor agregado, como queijos tipo grana, manteigas e cremes especiais. É um mercado que valoriza qualidade e não apenas preço”, afirma Sartor.
A aposta nos produtos premium também ajuda a compensar parte dos desafios enfrentados pelo setor. Com a redução gradual das tarifas de importação prevista no acordo entre Mercosul e União Europeia, a concorrência com produtos europeus deve aumentar nos próximos anos.
Nesse contexto, a indústria brasileira busca reforçar atributos que não podem ser facilmente replicados, como proximidade com o consumidor, rastreabilidade da produção e controle total da cadeia produtiva.
Para Sartor, o futuro da atividade passa justamente pela combinação entre eficiência, qualidade e transparência.
“O consumidor está cada vez mais atento à origem dos alimentos, ao bem-estar animal e à qualidade dos produtos. Quem conseguir entregar tudo isso de forma consistente terá uma vantagem competitiva importante nos próximos anos”, conclui.
Com margens pressionadas e um ambiente de negócios cada vez mais competitivo, a verticalização da produção e o investimento em bem-estar animal deixaram de ser diferenciais opcionais e passaram a integrar a estratégia de sobrevivência e crescimento de boa parte da indústria brasileira de lácteos.