Em 2022, a seleção marroquina mobilizou a África em busca de um sonho: conseguir uma vaga na decisão da Copa do Mundo nas semifinais contra a França. Na época, a equipe eliminou Portugal nas quartas de final em uma partida emocionante.
A campanha empolgou: após a vitória contra os europeus, uma pesquisa realizada pelo Sagaci Research mostrou que 78% dos torcedores de países do continente consideravam apoiar o time, o primeiro africano nas quartas de final desde Gana, em 2010.
Neste ano, porém, embora seja mais uma vez o único representante do continente nas quartas, o apoio pode não ser o mesmo. Entenda abaixo.
A caótica final da CAF
A polêmica reside na final da Copa Africana de Nações (CAN) 2025. A final, disputada em janeiro de 2026 no estádio Prince Moulay Abdellah, em Rabat, havia terminado com vitória de Senegal por 1 a 0 na prorrogação, garantindo o que seria o segundo título continental da equipe.
No entanto, o jogo ficou marcado por uma sequência de episódios caóticos. Nos minutos finais do tempo regulamentar, um gol senegalês foi anulado, e, pouco depois, o árbitro marcou um pênalti para o Marrocos após revisão do VAR.
A decisão provocou revolta: jogadores de Senegal deixaram o campo em protesto, interrompendo a partida por vários minutos. Após o retorno e a conclusão do jogo com defesa do pênalti por Édouard Mendy e gol decisivo de Pape Gueye na prorrogação, as consequências disciplinares passaram a ser discutidas.
Nas semanas seguintes, a CAF aplicou multas, suspensões e punições a jogadores e membros das duas seleções, diante de um cenário classificado como violação de princípios de fair play e respeito à arbitragem.
Decisão deu título a Marrocos
Em março deste ano, Marrocos foi declarado campeão após a entidade acatar um recurso sobre a partida decisiva.
O Comitê de Apelação considerou que a seleção senegalesa infringiu o regulamento ao deixar o gramado, apesar de ter retornado 14 minutos depois e vencido por 1 a 0. O resultado foi anulado e convertido em triunfo marroquino por W.O. — resultando na derrota por 3 a 0.
Em nota oficial, a Federação Marroquina de Futebol afirmou que o recurso teve como base o cumprimento estrito das normas da competição. A entidade destacou ainda o compromisso com a integridade regulatória e a estabilidade dos torneios africanos.
Já a Federação Senegalesa de Futebol afirmou que levará o caso ao Tribunal Arbitral do Esporte (CAS), com sede na Suíça, buscando reverter a decisão. O governo do Senegal convocou uma investigação internacional independente após classificar a decisão como suspeita de corrupção.
As outras confederações africanas evitaram se posicionar após o episódio.
Fatores extra
Além do episódio envolvendo campo e bola, há ressentimentos de longa data no relacionamento entre o país e seu próprio continente, criando um distanciamento cultural e denúncias de preconceito. Durante a CAN, torcedores senegaleses relataram ter sofrido ofensas racistas vindos da torcida marroquina.
Outro episódio que causou tensão foi a retirada da cancidatura de Marrocos como país-sede para receber a competição, em 2015. O país alegou preocupação sanitária com o surto de ebola em alguns páises do continente, e pediu à CAF que adiasse o torneio. Diante da negativa, preferiu não hospedá-lo, e por isso, foi desclassificado das edições 2015, 2017 e 2019. A postura foi considerada “estigmatizante” por parte dos africanos.
A Argentina da África?
Memes à parte – no X, muitos torcedores compararam a situação de Marrocos no continente como a da Argentina na América do Sul, considerada como uma grande rival dos vizinhos –, Marrocos chega novamente como uma equipe em ascenção, enfrentando a França.
A Seleção Francesa garantiu vaga nesta etapa do Mundial ao vencer o Paraguai por 1 a 0, na Filadélfia. Os marroquinos, por sua vez, se classificaram após eliminarem o Canadá por 3 a 0, em Houston.