Quem é o rei de Oyó? Entenda a ligação do monarca nigeriano com Xangô

A visita do Alaafin de Oyó, Ọba Abimbola Akeem Owoade I, a Salvador mobilizou lideranças religiosas, pesquisadores e comunidades tradicionais de matriz africana. Para muitos brasileiros, o nome de Oyó desperta imediatamente a lembrança de Xangô — um dos orixás mais conhecidos do Candomblé e da Umbanda. O que nem todos sabem é que, na tradição iorubá, Xangô também é identificado como um antigo rei do reino de Oyó, localizado na atual Nigéria.

Segundo a embaixadora cultural do Palácio de Oyó, Paula Gomes, o Alaafin é a mais importante autoridade tradicional da civilização iorubá e representa uma linhagem que remonta ao próprio Xangô.

“Na tradição iorubá, o Alaafin ocupa o trono pertencente à linhagem direta do Orixá Xangô, sendo considerado herdeiro de uma das mais importantes tradições políticas e espirituais do povo iorubá”, explica à CNN Brasil.

Embora a Nigéria seja atualmente uma república, o Alaafin mantém um papel de liderança cultural, histórica e espiritual, sendo responsável por preservar tradições que atravessaram séculos.

 

Qual a relação do Rei de Oyó com o orixá Xangô?

Segundo a tradição iorubá, Xangô não nasceu como orixá. Ele foi um dos Alaafins de Oyó, lembrado como um rei poderoso, estrategista e associado à justiça. Após sua morte, passou por um processo de divinização e tornou-se um dos orixás mais reverenciados da religião iorubá.

Por isso, quando se fala no Rei de Oyó, fala-se também da linhagem do reino onde Xangô governou. Nas tradições religiosas preservadas no Brasil, Xangô passou a ser cultuado como o orixá do trovão, do fogo, da justiça e do equilíbrio, sem que sua dimensão histórica fosse esquecida.

História e religião caminham juntas

Especialistas explicam que a figura de Xangô reúne duas dimensões que coexistem: a histórica e a religiosa.

Do ponto de vista histórico, ele é lembrado como um antigo soberano de Oyó. Já na cosmologia iorubá e nas religiões afro-brasileiras, é uma divindade ligada ao poder, à justiça e ao equilíbrio, cultuada há séculos.

Essa união entre história e espiritualidade é comum nas tradições africanas, nas quais ancestrais de grande importância podem ser elevados à condição de orixás.

A passagem pela Bahia

Esta foi a primeira visita do atual Alaafin ao Brasil. Seu antecessor, Lamidi Olayiwola Adeyemi III, esteve em Salvador em 2014.

A programação acadêmica da visita foi organizada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). O sacerdote Diego de Ogum, a embaixadora cultural do Palácio de Oyó, Paula Gomes, e a sacerdotisa de Iemanjá Renata Barcellos atuaram como membros da comissão oficial do Alaafin de Oyó por meio da ASA Orisa Brasil, organização voltada à preservação do culto e do patrimônio iorubá. Durante a visita, eles integraram o staff responsável pelo acompanhamento da comitiva real.

Já a comitiva foi composta por professores, integrantes do Conselho Real de Oyó (Oyo Mesi), além de outros três reis tradicionais: os monarcas de Igboho, Iganna e Oro.

Entre os compromissos da agenda, o Alaafin visitou o Mafro (Museu Afro-Brasileiro), o Memorial das Baianas, o Muncab (Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira), a Uneb (Universidade do Estado da Bahia), diversos terreiros tradicionais e a Pedra de Xangô.

Além das visitas a espaços religiosos e culturais, a agenda incluiu compromissos acadêmicos. Na UFBA (Universidade Federal da Bahia), a rainha representou o Alaafin durante o lançamento de um livro dedicado à história de Oyó.

Segundo Paula Gomes, um dos momentos que mais chamou a atenção do casal real foi justamente a visita ao monumento dedicado a Xangô em Salvador.

“Eles ficaram impressionados ao ver um espaço público tão significativo dedicado a Xangô e reconheceram o compromisso do povo brasileiro com a preservação dessa herança cultural”, destaca.

A agenda intensa, com dias que ultrapassaram 12 horas consecutivas de compromissos, fez com que algumas visitas precisassem ser canceladas.

Ainda assim, de acordo com a embaixadora cultural, o Alaafin lamentou não conseguir cumprir toda a programação prevista e fez questão de deixar uma mensagem às comunidades religiosas brasileiras.

Ao longo da visita, ele manifestou orgulho pela forma como as tradições iorubás são preservadas no Brasil, incentivou a participação das crianças nos cultos, defendeu o ensino da língua yorùbá às novas gerações e reforçou que os brasileiros serão sempre bem-vindos à cidade de Oyó, na Nigéria.

Por que a visita emociona religiosos?

A escolha de Salvador como um dos principais destinos da visita não foi por acaso. A capital baiana é considerada um dos maiores centros de preservação da cultura iorubá fora da África, mantendo viva uma herança religiosa, linguística e cultural que remonta ao antigo Império de Oyó.

Para sacerdotes e praticantes das religiões de matriz africana, a presença do Alaafin representa muito mais do que a visita de uma autoridade tradicional. Ela simboliza o reencontro entre a terra de origem do povo iorubá e uma das maiores comunidades da diáspora africana no mundo. Na Bahia, costumes, cantigas, idiomas litúrgicos e rituais atravessaram séculos e continuam sendo preservados por gerações de terreiros.

Nesse contexto, a passagem do monarca é percebida como um reconhecimento da resistência dessas comunidades e da continuidade da tradição iorubá no Brasil.

Segundo Paula, o significado da visita vai além do aspecto religioso e reúne diferentes dimensões históricas e culturais. Além de reconectar a diáspora às suas origens, ela reconhece o trabalho de preservação realizado pelas comunidades tradicionais brasileiras, fortalece iniciativas de cooperação entre Brasil e Nigéria, reafirma a importância espiritual do trono de Oyó para os devotos de Orisá e amplia os laços institucionais entre os dois países.

“Ao visitar terreiros e comunidades religiosas, o Alaafin reconhece o esforço de gerações de brasileiros que preservaram a cultura, os rituais, os valores e a memória yorùbá, mesmo diante dos desafios históricos enfrentados ao longo dos séculos”, afirma.


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