PrEP de longa duração reduz incidência do HIV, mostra estudo da Fiocruz

Um estudo liderado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) apresentou uma alternativa eficaz para a prevenção do HIV (vírus da imunodeficiência humana) capaz de ser incluída no SUS (Sistema Único de Saúde). O método consiste na utilização de CAB-LA (cabotegravir injetável de longa duração), que é um princípio ativo inibidor do vírus da Aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida).

De acordo com a pesquisa, publicada nesta quinta-feira (24) na revista científica Lancet, a aplicação do cabotegravir resultou numa redução significativa de incidência de HIV e no aumento da cobertura de PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), que consiste no uso de medicamentos antirretrovirais antes da exposição ao vírus para impedir a infecção.

No Brasil, atualmente, o SUS fornece dois tipos de PrEP: PrEP diária e a PrEp sob demanda. O uso diário é indicado para qualquer pessoa que esteja em situação de vulnerabilidade ao HIV, enquanto o sob demanda consiste na utilização apenas quando a pessoa teve um possível contato com o vírus.

Esse tipo de tratamento geralmente é indicado para pessoas que possuem relações sexuais com frequência.

O medicamento cabotegravir, comercializado como princípio ativo de Vocabria, foi aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em novembro de 2023.

Método

A pesquisa foi realizada em 14 unidades do SUS nas cidades Rio de Janeiro (RJ), Manaus (AM), São Paulo (SP), Campinas (SP) e Florianópolis (SC), além de ter a participação de algumas organizações da sociedade civil, como a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) e o Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT.

O público-alvo eram homens cisgênero, pessoas não-binárias atribuídas ao sexo masculino ao nascer, homens e mulheres trangênero que fazem sexo com homens. As idades variavam entre 18 e 30 anos e os voluntários não poderiam ter sido infectado pelo HIV ou utilizado PrEP. Quase 3.100 pessoas participaram.

Do total, houve uma separação de três grupos que participaram de forma dinâmica, o que na ciência é chamado de “coorte aberto”, quando os integrantes podem entrar ou sair da pesquisa a qualquer momento durante os estudos. Veja os grupos:

  1. Coorte Escolha CAB-LA: participantes que optaram por utilizar o princípio injetável;
  2. Coorte Escolha PrEP Oral: participantes que optaram por utilizar a pílula diária (tenofovir + emtricitabina);
  3. Coorte Comparadora PrEP Oral SUS: participantes que optaram por utilizar a PrEP oral na rede de atendimento do SUS.

Resultados

Após o tratamento realizado durante um ano, percebeu-se que, no grupo 1, houve uma incidência de 0,2 por 100 pessoas, no grupo 2, 0,87/100 e, no grupo, 3 1,48/100. Ou seja, houve uma menor contaminação por HIV na população que utilizou CAB-LA.

Sobre cobertura da PrEP, o grupo 1 ficou protegido em 90,8% dos dias, o grupo 2 em 47,3% e o grupo 3 em 35,5%.

Impasses

Em relação à aprovação do uso de CAB-LA, o estudo mostrou que houve uma aceitação positiva entre as populações vulneráveis, porém barreiras sociais e estruturais, como raça e escolaridade, continuam sendo um problema para a adoção completa do método.

Há o risco de 60% de pessoas não-brancas (pretas, pardas, indígenas ou asiáticas) não continuarem o tratamento. Isso se deve a diversos fatores, como discriminação no momento do atendimento.

Mais de oito em cada dez pessoas que possuem o ensino médio incompleto também têm o risco de abandonarem o acompanhamento, quando comparado com grupos que possuem ensino médio completo ou ensino superior.

Outro fator levando no estudo foi a perda do seguimento clínico quando o paciente possui sintomas depressivos graves.

A partir desses impasses, o estudo apresenta que além de ofertar o CAB-LA no SUS, o sistema também precisa adotar estratégias de acolhimento para grupos que têm mais risco de abandonarem o acompanhamento.

*Sob supervisão de Carolina Figueiredo

 

FONTE

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