As redes sociais possuem uma infinidade de conteúdos produzidos por influenciadores, que vão desde temas científicos até a demonstração de uma vida luxuosa. Há, no entanto, um nicho que tem despertado interesse e feito muito sucesso: a produção de vídeos sobre a vida comum.
Viagens perfeitas, casas impecáveis, corpos idealizados e vidas aparentemente sem problemas seguem presentes nas plataformas, mas esse tipo de conteúdo passou a dividir espaço com outra narrativa, que é a da vida cotidiana.
Influenciadores que mostram a rotina, trabalho, casa, filhos, relacionamentos, treino, compras, dificuldades e pequenas conquistas ganharam visibilidade entre as pessoas que consomem as redes sociais como meio de lazer e distração.
Ingrid Spyker, especialista em Creator Economy e CEO da Creators Brand, explica à CNN Brasil que a influência sempre esteve muito associada à aspiração, ao desejo de ter o que a outra pessoa tem. Hoje, esse interesse cresceu pela identificação, pela sensação de se reconhecer na outra pessoa.
“Creators que transformam o cotidiano em narrativa criam uma espécie de reality contínuo. A audiência acompanha uma história que não necessariamente começa e termina em um único conteúdo. Ela acompanha uma vida”, afirma Ingrid.
Ao acompanhar diariamente essa pessoa, o internauta cria uma espécie de familiaridade. Ele conhece a casa, os hábitos, a família, o trabalho, os relacionamentos e até a maneira como o criador costuma reagir a determinadas situações.
A profissional, no entanto, alerta sobre esse tipo de conteúdo, já que pode não ser integralmente espontâneo. “Isso não torna necessariamente o conteúdo falso. Existe uma diferença importante entre construir uma narrativa e inventar uma realidade”, avalia.
Gilberto Ramos, psicólogo da Starbem, explica que é preciso estar atento se o hábito de acompanhar a vida de outras pessoas nas redes sociais se tornou mais interessante do que participar da própria.
O profissional avalia que atualmente existe um possível cansaço coletivo em relação aos conteúdos que mostram pessoas extremamente bem-sucedidas o tempo todo.
“Ver alguém vivendo uma vida possível, com suas imperfeições, pode produzir mais identificação do que acompanhar uma realidade aparentemente inalcançável”, explica.
Como a vida “irreal” impacta a rotina de uma pessoa na vida real?
Há diversos sinais que podem mostrar que essa relação entre vida real e redes sociais está em crise.
Para Gilberto Ramos, um dos principais alertas surge quando a pessoa deixa de valorizar as próprias conquistas.
“A pessoa compra um apartamento, mas ele não é tão bonito quanto o que viu nas redes. Conquista um emprego, mas sente que está atrasada porque alguém da mesma idade parece ter alcançado muito mais”, exemplifica.
Ele segue: “Como psicólogo, considero importante observar quando a comparação deixa de inspirar e começa a produzir frustração. Nas redes, frequentemente comparamos os bastidores da nossa vida com os melhores momentos da vida dos outros. E essa comparação dificilmente será justa”.
Relação mais saudável com o celular
Esse acompanhamento de influenciadores que vivem “vidas perfeitas” pode trazer sentimentos de insuficiência e fracasso. Não é possível saber toda a estrutura que tornou o sucesso de alguém possível.
Reconhecer o valor da própria trajetória é um ótimo passo para começar a usar as redes sociais de forma mais saudável. É importante entender que nem sempre será possível ter rotina impecável de exercícios, alimentação, trabalho e lazer.
O excesso no uso do celular também pode intensificar esses sentimentos de frustração e insuficiência. Criar momentos sem notificações, preservar o sono e recuperar atividades presenciais são medidas importantes para ter uma rotina mais saudável.
De acordo com Gilberto Ramos, o vício em celular deve ser investigado na clínica ou em sessões de análise. Muitas vezes, esse uso tão intenso do aparelho pode ser apenas uma maneira de evitar o silêncio, o tédio ou algum desconforto.
“A questão central não é demonizar a tecnologia. É perceber quando deixamos de utilizá-la por escolha e começamos a agir no automático. O excesso merece atenção, especialmente quando existe perda de controle e prejuízo à vida cotidiana”, conclui o profissional.