Políticos influenciadores mantêm conexão diária com suas bases, diz Dolci

A ascensão dos políticos influenciadores representa uma mudança na relação entre representantes eleitos e suas bases de apoio. Diferentemente das celebridades que ingressaram na política ou dos influenciadores que passaram a abordar o tema, esses nomes constroem comunidades mobilizadas em torno do debate político e mantêm contato frequente com seus apoiadores. A avaliação é do cientista político Renato Dolci, diretor de dados da Timelens, durante participação no WW Especial, da CNN Brasil.

Na análise, Dolci propõe diferenciar três movimentos que aproximam fama, audiência e política: a entrada de celebridades na disputa eleitoral, o surgimento de influenciadores que incorporam a política a comunidades já estabelecidas e a ascensão de políticos cuja presença digital se desenvolve em torno da própria atividade política.

“De alguma forma, as celebridades foram muito importantes. Nós vimos as celebridades se destacando dentro do debate político, e os partidos inclusive queriam muito trazer celebridades, puxadores de voto”, afirmou.

Um dos exemplos citados pelo cientista político é o humorista Tiririca, eleito deputado federal por São Paulo em 2010 com votação expressiva. Para Dolci, o caso ilustra como a popularidade construída fora da política pode ser convertida em votos.

“Tiririca talvez seja um fenômeno mais claro desse efeito. Aliás, um dos elementos que fez com que se discutisse cláusula de barreira e coeficiente eleitoral foi a votação do Tiririca”, disse.

Segundo o analista, esse modelo de associação entre fama e política perdeu espaço ao longo do tempo. A celebridade que ingressava na disputa eleitoral vinha, em geral, da televisão ou de outros meios tradicionais de comunicação, em um contexto diferente do atual ambiente digital.

Dolci também relaciona esse movimento à presença de outsiders, figuras que se apresentam como alternativas aos políticos tradicionais e exploram o sentimento antipolítica. Tiririca, segundo ele, reúne essas duas características: a de celebridade e a de outsider.

“O Brasil já foi antipolítico por excelência e acreditava nesses perfis. O Tiririca continua sendo um exemplo de outsider e celebridade. O lema dele era: ‘Pior que tá, não fica’”, lembrou.

Influenciador político X político influenciador

Para Dolci, o cenário atual exige distinguir o influenciador político do político influenciador. Embora os termos sejam semelhantes, eles representam trajetórias e formas de mobilização distintas.

O influenciador político, segundo o cientista político, é aquele que constrói sua audiência em torno de uma comunidade que não necessariamente surgiu por razões políticas. Com o tempo, passa a incorporar temas políticos ao conteúdo e à relação que mantém com seus seguidores. Dolci cita Pablo Marçal como exemplo desse perfil.

“O influenciador político é diferente do político influenciador. O influenciador político é um Pablo Marçal. É aquele que nasce e constrói a influência dentro de uma rede, uma comunidade muito organizada, mas que traz a política para dentro dessa comunidade, que se organizou não necessariamente a partir da política”, explicou.

Já o político influenciador tem sua atuação e sua comunidade diretamente ligadas à política. Nesse grupo, o analista menciona nomes como Nikolas Ferreira (PL-MG), Mario Frias (PL-SP), Lucas Pavanato (PL) e outros representantes que conquistaram votações expressivas e consolidaram presença nas redes sociais em torno de pautas políticas.

“Eles falam sobre política, respiram política, defendem, constroem ideologia, ensinam. Eles têm um bloco de conexão em que vivem política o tempo todo”, destacou.

A diferença, portanto, não está apenas no alcance ou na popularidade nas plataformas digitais, mas na origem e na natureza da relação com o público. Enquanto o influenciador político leva a política para uma comunidade formada anteriormente, o político influenciador mobiliza seguidores a partir de uma identidade política compartilhada.

Outro aspecto destacado por Dolci é a continuidade do vínculo entre esses políticos e seus apoiadores. No modelo tradicional, a campanha eleitoral concentrava os esforços de comunicação e mobilização, com o candidato buscando reunir uma base de eleitores durante determinado período. Com as redes sociais, essa relação pode se estender por todo o mandato.

“O político, antes, construía sua campanha, arregimentava bases que, de alguma forma, se conectavam com ele em algum momento, e depois isso acabava. Esse político influenciador passa quatro anos conectado com sua base todos os dias, falando todos os dias, dividindo todos os dias”, acrescentou.

Para Dolci, essa dinâmica caracteriza uma nova forma de conexão política. A comunicação deixa de estar concentrada nas eleições e passa a integrar a rotina do representante e de sua comunidade, com a produção constante de conteúdo e o compartilhamento de ideias e posicionamentos.

“Eles respiram política, nasceram da política, falam de política. O que conecta a comunidade deles é política”, concluiu.

WW Especial

Apresentado por William Waack, o programa é exibido aos domingos, às 22h, em todas as plataformas da CNN Brasil.

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*Publicado por Jorge Fernando Rodrigues 

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