O excesso de energia no período diurno já reduz o espaço para novos investimentos em geração no Brasil. Segundo o diretor de Planejamento do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), Alexandre Zucarato, adicionar nova potência nesses horários pode apenas substituir a geração que já está disponível no sistema.
Segundo ele, uma das alternativas é postergar investimentos em geração ou ampliar o uso de sistemas de armazenamento capazes de guardar a energia produzida durante o dia para utilização nos horários de maior consumo.
“Não faz mais sentido injetar potência na rede no período diurno porque basicamente vamos colocar um megawatt novo e vai ter que deslocar um megawatt existente”, afirmou em entrevista ao Alta Voltagem, programa da CNN. “Isso pode ser contornado com uma postergação de investimentos que não têm outra alternativa”, acrescentou.
Zucarato afirma que esse cenário decorre de uma mudança estrutural da matriz elétrica brasileira, marcada pela rápida entrada de fontes renováveis, queda do custo dessas tecnologias e subsídios que estimularam a expansão da capacidade mesmo sem demanda equivalente.
O avanço da oferta, no entanto, não ocorreu de forma uniforme ao longo do dia. Enquanto o perfil de consumo manteve um comportamento mais estável, parte importante da nova geração passou a se concentrar no período diurno.
“A curva de consumo de energia segue seu comportamento, mas estamos colocando geração de energia só durante o dia, o que cria um descompasso entre oferta e demanda e o ONS precisa fazer uma ginástica para compensar essa diferença”, disse.
“A causa raiz é a revolução tecnológica que aconteceu no setor elétrico, que foi a entrada maciça de fontes renováveis com uma velocidade muito rápida, os custos caindo e sem depender de leilões regulados”, afirmou.
Embora a expansão da geração solar seja um dos principais fatores por trás desse movimento, Zucarato ressalta que o problema não se limita a essa fonte. Usinas térmicas com pouca flexibilidade para reduzir a produção e períodos de elevada geração eólica também podem aumentar a oferta em momentos em que não há consumo suficiente para absorver toda a energia produzida.
Transmissão não resolve todo o problema
Zucarato concorda com a avaliação do diretor-geral da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), Sandoval Feitosa, de que novos investimentos em geração precisam ser analisados diante do atual cenário de sobreoferta.
Segundo o diretor do ONS, ampliar a capacidade de transmissão não é suficiente para eliminar todos os cortes de geração.
Isso acontece porque parte do problema não está somente na capacidade de transportar a energia entre regiões, mas na falta de consumo suficiente para absorver toda a produção disponível no sistema.
Nesses momentos, mesmo que haja capacidade de transmissão, o operador precisa reduzir a geração de algumas usinas para manter o equilíbrio entre oferta e demanda. Esse processo é conhecido como “curtailment”, ou corte de geração.
Segundo Zucarato, o ONS já elaborou estudos para acompanhar a evolução dos cortes de geração e dimensionar o impacto da sobreoferta no sistema. O prognóstico mostra que, quando considerado apenas o período diurno, há cortes de geração por razões energéticas em cerca de 85% das horas.
O operador também projeta que a necessidade de redução da geração poderá chegar a 40 GW em determinados cenários.