Há promessas que atravessam gerações, resistem ao tempo e se transformam em uma história de fé e gratidão. Há 45 anos, Ita Sales mantém uma promessa feita à Nossa Senhora de Nazaré durante o Círio, em Belém.
O compromisso começou em 1981, quando ela participou da procissão grávida do primeiro filho. Anos depois, diante da possibilidade de perder a criança, voltou a recorrer à santa e encontrou na devoção uma forma de agradecer pela vida.
Segundo Ita, a história com o Círio começou antes mesmo de Francisco Alexandre Sales nascer. Em 1981, grávida, ela participou da corda pela primeira vez. A experiência marcou o início de uma relação que, décadas depois, continuaria sendo um dos pilares de sua vida.
“Fiz, consegui fazer o percurso de ida e de volta, e foi muito bom, porque eu tive um excelente parto, tive um filho maravilhoso”, relembra.
Mas a fé de Ita seria colocada à prova novamente. Francisco sofreu nove convulsões quando era ainda criança. Na época, segundo a mãe, os médicos chegaram a desenganar o filho.
Desesperada diante da possibilidade de perdê-lo, ela buscou amparo na fé. Perto do hospital onde o jovem estava internado, ajoelhou-se diante da imagem da padroeira da Amazônia e fez um pedido: que a santa devolvesse a saúde do filho.
Foi naquele momento que nasceu uma promessa que ela mantém até hoje: enquanto tiver saúde e condições físicas, continuará participando da corda do Círio. Hoje, aos 63 anos, segue mantendo a tradição.
“Foi um pedido de socorro a Maria. Eu vim de lá, ajoelhei ao pé da santa, pedi para ela dar a saúde dele. E fiz uma promessa, que enquanto saúde eu tiver e puder puxar a corda de Nossa Senhora de Nazaré, a corda do Círio, eu puxo”, conta.
Francisco sobreviveu e está prestes a completar 45 anos, no dia 21 de outubro. Para Ita, cada Círio é uma oportunidade de renovar o agradecimento pela vida do filho e pela família.

A fé que transforma sofrimento em gratidão
Ao longo dos anos, a história de fé da família ganhou um segundo capítulo. Ita fez outra promessa a Nossa Senhora de Nazaré depois que o segundo filho, Adriano Sales, sofreu um golpe no pescoço.
Hoje, a participação no Círio representa, para ela, mais do que o cumprimento de uma promessa. É uma maneira de reconhecer as bênçãos recebidas e de manter viva a ligação com a santa que considera sua protetora.
“Se eu tivesse que fazer tudo de novo, eu faria, sem sombra de dúvida. Porque a minha fé é inabalável. Maria de Nazaré é a mãe que eu escolhi para ser a minha mãe”, declarou.
A força coletiva de quem segura a corda
A participação na corda também é marcada pela união entre os devotos. Ita integra o grupo Amigos da Corda do Círio e faz parte do núcleo da cabeça, que reúne mais de 500 pessoas.
Atualmente, Ita participa da primeira estação, em um dos pontos de apoio do percurso, e acompanha de perto o trabalho dos integrantes do grupo.
A emoção, segundo ela, aparece especialmente nas paradas e homenagens ao longo da procissão. “Nós sofremos em todas as paradas, nas homenagens, choramos, gritamos”, conta.
Círio reúne fé, promessas e ex-votos
A história de Ita faz parte de uma tradição que reúne milhares de pessoas em Belém durante o Círio de Nazaré, uma das maiores manifestações religiosas do Brasil.
A festividade mobiliza devotos que vão às ruas para agradecer por graças alcançadas, renovar pedidos e cumprir promessas.
Entre os momentos mais simbólicos está a procissão principal, quando a imagem peregrina percorre as ruas da capital paraense, acompanhada por uma multidão.
A corda, ligada à berlinda que conduz a imagem, representa para muitos fiéis um gesto de devoção, sacrifício e agradecimento.
Outra expressão dessa fé são os ex-votos, objetos levados pelos devotos como forma de representar uma promessa cumprida ou uma graça recebida.
Entre eles, estão réplicas de partes do corpo, como cabeças, mãos e pernas, além de miniaturas de casas, barcos e outros objetos relacionados a pedidos atendidos. As peças podem ser feitas de cera, madeira ou outros materiais.
Esses objetos representam histórias pessoais de superação, recuperação da saúde, proteção e conquistas familiares. Assim como a promessa de Ita, cada ex-voto carrega uma experiência particular que encontra espaço na manifestação coletiva de fé.
