Líder de seita do Quênia é culpado pela morte por inanição de 190 crianças

O líder de uma seita cristã do Quênia foi considerado culpado pelo assassinato de 190 crianças, por meio de um sistema organizado de jejum forçado e maus-tratos.

Na segunda-feira (19), Paul Mackenzie foi condenado, juntamente com cerca de 30 outros suspeitos, pelo Tribunal Superior de Mombaça pela morte de 191 pessoas — todas, exceto uma, crianças — na floresta de Shakahola, no leste do Quênia.

Os promotores classificaram o julgamento como um dos casos criminais “mais relevantes” da história do país.

O tribunal concluiu que as mortes decorreram de um “sistema organizado no qual ensinamentos religiosos e uma hierarquia estabelecida eram utilizados para orientar e impor jejuns letais entre os seguidores de Mackenzie”, informou o gabinete do diretor do Ministério Público do Quênia.

“O jejum foi implementado de forma sequencial, começando pelas crianças, enquanto guardas controlavam a movimentação e impediam que os seguidores escapassem”, informou o órgão em um comunicado.

O tribunal também ouviu que Mackenzie desencorajava o uso da medicina moderna e o acesso à educação formal.

O líder da seita, que tem pouco mais de 50 anos, e os outros acusados ​​foram denunciados pelos homicídios em 2024, após a exumação de centenas de corpos de crianças na floresta de Shakahola — local onde ele e seus associados teriam mantido uma organização que levava à morte.

As autoridades começaram a encontrar corpos na floresta de Shakahola em abril de 2023. Até o momento, foram recuperados 429 corpos. Novas acusações poderão ser apresentadas.

Mackenzie, que liderava a igreja Good News International Church, foi acusado de orientar seus seguidores a submeterem a si mesmos e a seus filhos à inanição até a morte, com o objetivo de alcançarem o céu e encontrarem Jesus, conforme noticiado anteriormente pela CNN.

Os resultados de exames post mortem, citados pela juíza Diana Kavedza na segunda-feira, indicaram que algumas vítimas morreram em decorrência de asfixia, compressão no pescoço ou traumatismos cranianos, e não apenas por inanição.

O advogado de Mackenzie, Lawrence Obonyo, disse a repórteres que a equipe de defesa planejava recorrer, afirmando que seu cliente sustenta não ter forçado ninguém a jejuar e que as ações das vítimas foram voluntárias.

Famílias em busca de justiça no Quênia

Em uma longa decisão, que durou mais de oito horas na segunda-feira, a juíza descreveu como Mackenzie utilizava sermões e materiais escritos para convencer seus seguidores de que o mundo exterior era maligno e que eles só poderiam encontrar a salvação mudando-se para a floresta.

Segundo a juíza, provas extraídas do celular dele, incluindo mensagens de WhatsApp, revelaram comunicações com os seguidores antes de eles se mudarem para Shakahola.

Ela afirmou que os seguidores foram convencidos a abandonar suas casas, famílias e meios de subsistência.

O juiz também descreveu como aqueles que resistiram à ordem de Mackenzie para jejuar foram forçados a obedecer. “As crianças eram contidas, privadas de alimento e punidas por tentarem comer ou fugir”, afirmou o diretor do Ministério Público.

A CNN noticiou anteriormente o caso de famílias que buscavam parentes desaparecidos na floresta de Shakahola. Rodgers Shibutse, morador de Nairóbi, afirmou ter encontrado os restos mortais da mãe entre os corpos exumados em fevereiro de 2024.

Shibutse disse à CNN, na segunda-feira, que Mackenzie causou um sofrimento imenso e que ele deseja que o réu seja condenado à prisão perpétua. A sentença dele e dos demais acusados ​​será proferida no dia 6 de novembro.

Ao ser questionado se isso traria justiça para sua mãe, Shibutse respondeu: “Não é justiça 100%, mas, pelo menos, o governo fez alguma coisa”.

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