Lanchas, imóveis e empresas: veja patrimônio de investigados em ação do MP

Dois policiais civis com salários brutos inferiores a R$ 8,6 mil aparecem na investigação da Operação Merx, deflagrada nesta sexta-feira (28), associados a um patrimônio que inclui lanchas, imóveis, empresas e veículos.

Os bens e as movimentações financeiras foram analisados pelo MPSP (Ministério Público de São Paulo), que investiga um esquema de extorsão contra contrabandistas de eletrônicos na Grande São Paulo.

Segundo o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), os policiais são suspeitos de cobrar valores equivalentes a até 70% das cargas abordadas para liberar caminhões ou devolver mercadorias que deveriam ser apreendidas.

A investigação patrimonial passou a integrar a apuração sobre a possível lavagem dos valores obtidos com as extorsões. Para a Justiça, algumas das movimentações identificadas apresentam características que precisam ser esclarecidas.

Ao todo, foi determinado o bloqueio e o sequestro de até R$ 4 milhões em bens dos investigados.

Patrimônio que chamou a atenção do MP

De acordo com a investigação, o investigador-chefe Marcos Vinicius de Souza Melo, em março de 2026, tinha remuneração bruta mensal de R$ 8.523,77.

Segundo os documentos analisados pelo Gaeco, ele aparece como proprietário de duas embarcações: o bote “Seu Valdir” e a lancha “Marcolinha e Bia”.

O patrimônio imobiliário inclui propriedades em Barueri, na Grande São Paulo, e uma casa de veraneio em Maresias, no litoral paulista.

Marcos Vinicius também figura como sócio de cinco empresas. Entre os negócios estão companhias relacionadas à segurança eletrônica, transporte de cargas, assessoria contábil e administração de imóveis próprios.

O Gaeco ainda identificou uma série de mudanças na estrutura societária das empresas no segundo semestre de 2024, incluindo alterações de atividades, transferências de sede e entradas e saídas de sócios.

Para o Ministério Público, a concentração dessas movimentações em período próximo aos episódios de extorsão investigados levanta a possibilidade de ocultação ou dissipação de patrimônio.

Dinheiro das extorsões e imóveis de leilão

Outro nome que aparece na investigação patrimonial é o do investigador Bruno Moreno dos Santos, que recebia R$ 7.729,53 brutos por mês.

Segundo o processo, Bruno adquiriu diferentes imóveis em leilões da Justiça do Trabalho.

Em 18 de julho de 2024, ele arrematou um terreno de 680 m² em Caieiras, na Grande São Paulo, por R$ 65 mil. O imóvel foi vendido posteriormente por R$ 85 mil.

Menos de um mês depois, em 12 de agosto de 2024, o investigador quitou um terreno em um condomínio residencial de Barueri por R$ 141.471,77.

Em 9 de maio de 2025, adquiriu outra propriedade em leilão judicial, desta vez em Sorocaba, por R$ 197 mil.

A sequência de aquisições chamou a atenção do Ministério Público porque parte delas ocorreu em período próximo aos episódios de extorsão investigados na Operação Merx.

Na decisão que autorizou as medidas contra os policiais, o juiz Djalma Moreira Gomes Junior afirmou que a compra de bens em hasta pública poderia ser utilizada como uma forma de conferir aparência lícita a recursos de origem ilícita.

O policial também possui uma empresa de transporte rodoviário de cargas. Para o Gaeco, a atividade empresarial merece esclarecimento diante da própria natureza da organização investigada, que atuaria justamente na interceptação de cargas de eletrônicos contrabandeados.

Um Fusca, duas caminhonetes e uma série de conexões

A investigação também encontrou vínculos patrimoniais entre os policiais e pessoas próximas.

O investigador Vagner Ramalho, que tinha salário bruto de R$ 8.436,51, possui um Volkswagen Fusca 1965 registrado em endereço residencial associado a Marcos Vinicius.

No mesmo endereço também estava registrada uma Volkswagen Amarok pertencente à ex-esposa de Marcos Vinicius.

Outro negócio analisado pelo Ministério Público envolve a esposa de Vagner. Segundo os documentos, ela vendeu, em 6 de setembro de 2024, um terreno de 250 m² no Residencial Quintas do Ingaí, em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo.

A transação ocorreu cerca de uma semana depois de episódios de extorsão investigados pela força-tarefa.

O quarto policial alvo da prisão preventiva, José Adriano Pereira da Silva Nishi, tinha salário bruto de R$ 6.326,61. Em seu nome estava registrado um Audi A3. A esposa dele, por sua vez, possuía um Hyundai Creta 2024/2025.

Bloqueio do patrimônio

Com os indícios reunidos na investigação, a Justiça determinou uma operação de bloqueio que vai além das contas bancárias.

O juiz também determinou que 14 corretoras de criptomoedas informassem a existência de ativos vinculados aos investigados e adotassem medidas de bloqueio.

A determinação prevê ainda a alienação imediata dos ativos digitais eventualmente encontrados, pelo valor de mercado, para evitar a perda de valor decorrente da oscilação das criptomoedas.

Entenda a operação

A Operação Merx investiga a atuação de uma organização suspeita de utilizar policiais civis para interceptar cargas de eletrônicos contrabandeados e exigir dinheiro dos responsáveis pela mercadoria.

Segundo o MPSP, os pagamentos poderiam chegar a 70% do valor das cargas. Além dos policiais, a investigação alcança contrabandistas e um advogado apontado como intermediário dos pagamentos.

Leia também: Operação mira policiais civis de SP por extorsão contra contrabandista

A Justiça decretou a prisão preventiva de sete pessoas e determinou o afastamento de um investigador das funções públicas. A origem lícita ou ilícita dos patrimônios ainda será objeto de análise no processo.

Dos sete alvos, seis já foram presos — apenas um dos policiais ainda não foi localizado. A Operação Merx cumpre mandados em São Paulo, no Paraná e em Goiás.

A CNN Brasil não localizou a defesa dos citados. O espaço segue aberto.

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