Lecornu anunciou que o governo não tem “nada a esconder” e pediu resposta rigorosa contra os manifestantes: uma “operação judicial em larga escala começa hoje.”
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, admitiu que as autoridades não conseguiram prever a dimensão dos distúrbios e ofereceu sua renúncia, mas o presidente Emmanuel Macron se recusou a aceitá-la.
França enfrenta caos após protestos violentos se espalharem pela Europa
A França enfrenta seus piores distúrbios em anos depois que protestos nacionais contra a situação da educação e o custo de vida se transformaram em uma onda de violência mortal em todo o país, provocando acusações mútuas internamente e ameaçando se espalhar para países vizinhos da Europa.
A polícia lançou gás lacrimogêneo contra multidões e entrou em confrontos com manifestantes encapuzados, vestidos de preto, que atearam fogo e invadiram lojas e prédios públicos. Imagens mostraram edifícios históricos em chamas.
Mais de 2 mil pessoas foram presas, com pelo menos duas mortes e relatos de feridos graves, incluindo duas pessoas que perderam as mãos. Enquanto a França começa a contabilizar os prejuízos, aumentam as acusações de que o governo não conseguiu prever adequadamente a dimensão da crise, a apenas seis meses da eleição para escolher o sucessor do presidente francês, Emmanuel Macron.
Autoridades e líderes políticos ressaltam que a grande maioria dos manifestantes tem protestado pacificamente. No entanto, o nível de confrontos e destruição, o pior registrado em anos, abalou o país e provocou fortes condenações de líderes e da população.
“Quem destruiu terá de pagar”, disse Macron na noite de domingo. “Quem saqueou terá de ressarcir. Quem tentou derrubar a República será responsabilizado.”
Ele também prometeu realizar reuniões nesta semana para discutir “propostas concretas” e ouvir as reivindicações dos manifestantes. Ainda não se sabe, porém, se isso será suficiente para conter os protestos na França — assim como manifestações semelhantes contra o custo de vida que agora se espalham por outros países próximos.
O que aconteceu neste fim de semana?
Mais de 500 mil pessoas protestaram em toda a França no sábado. Na maior parte do tempo, os atos foram pacíficos. O líder da extrema esquerda Jean-Luc Mélenchon descreveu a multidão em Paris como alguém que “avançava calmamente”.
Mas, em vários locais, os protestos terminaram em violência, especialmente ao anoitecer. Em Paris, grupos de jovens mascarados saquearam lojas e atearam fogo; em Lyon, manifestantes incendiaram o escritório de turismo da cidade; e, em Limoges, no centro do país, a torre de um prédio da prefeitura com 143 anos desabou em meio às chamas, trazendo de volta, para alguns, lembranças dolorosas do incêndio da Catedral de Notre-Dame. Centenas de estabelecimentos comerciais foram depredados na região da Île-de-France, que inclui Paris, disse um representante local do setor à BFMTV.
Os protestos diminuíram parcialmente no domingo, embora pequenos focos de violência tenham persistido, e a polícia tenha lançado gás lacrimogêneo na histórica Place de la République, uma das maiores praças públicas de Paris. Mas o clima continua tenso. Nesta segunda-feira, manifestantes bloquearam o acesso ao Museu do Louvre, obrigando o fechamento do local, enquanto as autoridades de Marselha proibiram todas as reuniões e manifestações na cidade do meio-dia às 20h, no horário local, diante da possibilidade de novos episódios de violência.
Ao fim do fim de semana, Paris parecia uma “zona de guerra”, disse um visitante da cidade à Reuters. Moradores de toda a capital ficaram perplexos, alguns condenando os saques e os atos de violência, enquanto outros responsabilizaram as autoridades por não terem enfrentado a crise mais cedo.
“É de partir o coração, de partir o coração ver nossa cidade assim”, disse Farida, de 59 anos, moradora de Marselha que não informou o sobrenome, segundo a Reuters. “Se todo protesto terminar com todas as vitrines quebradas e as lojas destruídas, isso simplesmente não pode continuar — não pode continuar.”
Paola Formenti, de 56 anos, moradora de Paris, manifestou apoio à indignação “legítima” dos manifestantes. A violência “precisa ser condenada, é claro”, afirmou, mas acrescentou: “Acho que a única maneira de realmente evitar esse tipo de violência é responder aos protestos da população, ouvi-la”.
Em seu pronunciamento de domingo, Macron reconheceu as reivindicações dos manifestantes e disse que tomaria “uma série de iniciativas internacionais” para combater os preços dos combustíveis e garantir um abastecimento estável por parte dos países do Golfo. Ele não apresentou garantias concretas nem forneceu mais detalhes.