Pequenos negócios representam 95% das empresas brasileiras e respondem por 30% do PIB (Produto Interno Bruto), segundo dados compilados pelo Sebrae. Em 2024, o segmento foi responsável por 61% dos empregos criados no país.
Essa relevância econômica convive com um desafio comum em empresas menores: decisões, conhecimento e relações com clientes muitas vezes ficam concentrados no fundador ou em poucos sócios.
É nesse ponto que a governança deixa de ser um tema restrito às grandes companhias. Em linhas gerais, ela reúne práticas que ajudam a definir como a empresa é dirigida, quem responde por cada decisão e como os sócios acompanham os resultados.
Para uma pequena ou média empresa, pode começar com perguntas diretas como quem decide sobre os investimentos? Como os sócios resolvem divergências? Que informações precisam ser compartilhadas? E quem assume responsabilidades se o principal líder se afastar?
“Governança não precisa começar com um conselho formal”, afirma Daniella Leite, CEO da FBN Brasil (Family Business Network), organização que conecta famílias empresárias para a troca de experiências e boas práticas em temas como governança e sucessão, entre outros.
A executiva ainda completa que para empresas menores, pode-se começar com clareza sobre quem decide, quais responsabilidades cada pessoa assume e como os sócios conversam sobre os desafios do negócio.
“Esses acordos ajudam a empresa a depender menos de decisões concentradas e a se preparar para crescer e atravessar mudanças, inclusive uma possível sucessão. Direcionar a atenção para isso desde cedo pode evitar problemas no futuro”, diz Daniella.
Na prática, os primeiros passos podem ser simples. Realizar reuniões periódicas entre sócios, definir uma pauta e registrar decisões. Também ajuda estabelecer limites de autonomia para gastos e contratações, separar o caixa da empresa das despesas pessoais e combinar critérios para a entrada de familiares no negócio.
Esses acordos tornam as decisões mais previsíveis e reduzem a dependência de conversas improvisadas ou da memória de uma única pessoa.
A governança também ganha importância quando a empresa cresce. Mais funcionários, clientes, fornecedores e sócios ampliam o número de decisões e de interesses envolvidos.
Sem papéis bem definidos, o crescimento pode aumentar os ruídos e sobrecarregar quem fundou o negócio. Com responsabilidades mais claras, fica mais fácil acompanhar resultados, identificar problemas e decidir os próximos passos.
“Muitas empresas que estão no início da jornada só percebem a falta de governança quando o crescimento começa a gerar desorganização ou quando o fundador já não consegue centralizar todas as decisões”, afirma Paulo Moreira, CEO do Grupo LPJ, empresa que atua na transformação de negócios, combinando estratégia, tecnologia, gestão e conhecimento especializado para apoiar empresas em projetos de alta complexidade.
“O ideal é fazer esse movimento antes da crise. Criar processos, indicadores, níveis de autonomia e responsabilidades claras permite que a empresa cresça de forma mais previsível e dependa menos de uma única pessoa.”
Quando a transferência de responsabilidades só entra na pauta diante de uma doença, aposentadoria ou conflito, pode faltar tempo para preparar quem vem depois. Planejar com antecedência permite avaliar competências, distribuir conhecimento e alinhar expectativas entre gerações.
O objetivo não é importar estruturas de grandes empresas, mas adaptar princípios de governança ao porte e à realidade de cada negócio. A pergunta que fica para o empreendedor é simples: se você se afastasse por um mês, sua empresa saberia quem toma as decisões e como seguir?
Se a resposta for não, esse pode ser o primeiro sinal de que a empresa precisa distribuir melhor responsabilidades e decisões. O empreendedor pode começar identificando quais tarefas dependem exclusivamente dele, registrando processos essenciais e combinando com sócios ou lideranças quem pode assumir cada frente.
“Não é preciso resolver tudo de uma vez. Reuniões regulares e acordos claros já ajudam a reduzir a dependência de uma única pessoa e dão mais segurança para o negócio seguir em momentos de mudança”, finaliza a CEO da FBN Brasil.