Ex-Global, Angel Ferreira revela por que trocou fama por casa em ônibus

Em 2018, no auge da projeção nacional após integrar o elenco de “O Outro Lado do Paraíso”, da TV Globo, o ator que o público conhecia como Igor Angelkorte começou a sentir que a figura construída para a televisão já não cabia mais em si.

O reconhecimento contínuo nas ruas, as abordagens constantes e a obrigação de corresponder a uma ideia pré-fabricada de sucesso resultaram em um verdadeiro sufocamento.

“Essa identidade de ser um ator da Globo começou a me cansar. Como artista, acho importante a gente observar o mundo. Mas quando o mundo te observa continuamente, você precisa estar muito firme. Eu fiquei assustado. Ninguém te prepara para o que significa se tornar uma pessoa conhecida”, conta em entrevista à CNN Brasil.

A necessidade de ruptura o levou para a estrada. Durante mais de um ano, ele viajou pelo país conhecendo “outros Brasis” e artistas invisíveis até subir rumo à Amazônia.

O sonho inicial de percorrer o mundo a bordo de um motorhome foi se transformando no desejo oposto: fincar raízes e acalmar o passo. Foi na Chapada dos Veadeiros, mais precisamente no município de Cavalcante (GO), que ele encontrou seu pouso.

Com o orçamento reduzido após o período de pausa, encontrou na reciclagem uma saída poética e prática. Comprou uma carcaça abandonada de ônibus em um ferro-velho e a transformou em sua casa.

“Pegar a carcaça de um ônibus que não tinha mais uso e dar vida a ela era um símbolo para mim: a força de ressignificar nossos padrões de comportamento coletivos”, conta Angel.

Ele pondera, porém, sem romantizar: “Hoje eu não indicaria para ninguém fazer isso. Uma casa de terra é mais confortável. O ônibus demanda muito trabalho para isolamento térmico, mas amo minha casa. Ela é criativa, maluca, artística”, garante.

Se no início a mudança parecia ser uma busca por autossuficiência absoluta, o cotidiano no meio do mato trouxe um amadurecimento radical. O ator percebeu que a ideia de uma vida cem por cento isolada do impacto humano é uma ilusão.

“A minha frustração inicial foi ver que ninguém é autossuficiente. A gente é interdependente. Um cano para levar água é feito de derivado de petróleo. É impossível fazer uma obra onde não saia nenhum entulho. Esse choque de realidade me trouxe uma consciência mais realista sobre o que é possível e como posso contribuir reconhecendo meus limites”, reflete.

Em Cavalcante, ele encontrou no povo Kalunga e nos moradores locais uma lição diária de humildade e vida comunitária. Para retribuir, fundou ao lado de parceiras a Casa Candeia de Cultura, espaço cultural que promove oficinas de teatro, saraus e espetáculos há dois anos.

Uma nova identidade 

A mudança do nome artístico para Angel Ferreira — pronunciado com acento agudo no “e” — coroou essa renovação. Para ele, Igor não é um “nome morto”, mas representa um capítulo encerrado. “É como se o Igor fosse uma fase da minha vida artística. Angel me traz uma leveza e está em sintonia com quem sou hoje.”

Essa travessia pessoal ganha eco no teatro com o espetáculo “Sidarta”, atualmente em cartaz. A história de busca espiritual e desapego se confunde com a sua própria biografia.

“Uma amiga assistiu à peça e disse: ‘Isso é uma autoficção, é a sua história’. E realmente é. Essa peça para mim é uma oração, uma autoexposição. A máscara do personagem não serve para fugir, mas para nos revelar”, pontua.

Longe do excesso de estímulos digitais e do consumo desenfreado, Angel resume sua busca não por “ter pouco”, mas por encontrar a justa medida e o tempo de viver.

“A vida hiperestimulada é como um rio: você pisa no fundo, a areia sobe e fica tudo turvo. É preciso parar e ficar quieto para a lama baixar e você voltar a ver o fundo com clareza”, conclui.

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