Especialista: Trump deve responder imigração com políticas ainda mais duras

A postura anti-imigração nos Estados Unidos vai além de Donald Trump e reflete um contexto mais amplo de nacionalismo crescente, tanto cultural quanto econômico. É o que avalia Vinícius Rodrigues Vieira, professor de Relações Internacionais da FAAP, da FGV e do IDP, em entrevista ao WW, ao comentar os desdobramentos recentes entre Trump e a Suprema Corte dos EUA sobre políticas de imigração.

Segundo Vinícius Rodrigues Vieira, com os nacionalistas pressionando por medidas mais rígidas para coibir a entrada de imigrantes no país, Trump deve responder com políticas ainda mais duras do que as atualmente aplicadas pelo ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos EUA).

Vinícius Rodrigues Vieira destacou que o fenômeno ultrapassa o eleitorado mais evidente de Trump. “Hoje nós vivemos uma era mais nacionalista, seja na questão cultural, comportamental, seja na questão econômica”, afirmou.

Ele ressaltou que mesmo latinos de primeira e segunda geração nos Estados Unidos — ou seja, pessoas que migraram ou cujos pais migraram — demonstram amplo apoio à restrição da imigração para novos entrantes. A lógica, segundo ele, é a de que, quanto mais pessoas ingressarem no país, mais difícil se tornará a conquista do chamado “sonho americano”.

O especialista também apontou que, desde os anos 1990, pesquisas já indicavam que parte da população americana via o imigrante — especialmente o não branco e o não cristão — como uma ameaça não apenas aos postos de trabalho, mas à própria identidade dos Estados Unidos.

“Esse tipo de postura é normal nesse atual contexto. Podemos contestá-la por razões éticas, mas é esperado que o eleitor dê apoio a isso”, declarou Vinícius Rodrigues Vieira.

Referência acadêmica e o debate histórico

Para contextualizar o debate, Vinícius Rodrigues Vieira citou um artigo do cientista político Samuel Huntington, escrito há 22 anos, intitulado “O Desafio Hispânico”. No texto, Huntington — professor de Harvard — levantava a questão de se os Estados Unidos, caso fossem formados em sua maioria por falantes de espanhol, ainda seriam os Estados Unidos ou se tornariam outro país. O especialista lembrou que Huntington chegou a ser acusado de racismo à época pela abordagem do tema.

Vinícius Rodrigues Vieira concluiu que o sentimento anti-imigração vai muito além da base trumpista, ecoando entre os chamados nacionalistas brancos e em setores mais amplos da sociedade americana.

Diante desse cenário, ele avaliou que Trump utilizará a decisão da Suprema Corte como instrumento político junto ao seu eleitorado e que as respostas do governo devem se traduzir em “políticas ainda mais duras do que as que nós estamos vendo via ICE”.

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