As mulheres no Brasil dedicam, em média, quase o dobro do tempo em comparação aos homens a atividades de cuidado não remuneradas. Durante o Live CNN desta quarta-feira (19), Maíra Machado, socióloga e diretora de pesquisa do Instituto Locomotiva, analisou os impactos da chamada “jornada dupla” na vida das mulheres.
Os dados do IBGE, com base na PNAD Contínua de 2022, revelam uma diferença de 10 horas semanais, o que equivale a 40 horas a mais por mês, entre a jornada feminina e a masculina em atividades como afazeres domésticos, cuidado de filhos, idosos e pessoas com deficiência.
Segundo Maíra, os números retratam apenas a execução das tarefas, mas existe uma dimensão ainda maior que não é contabilizada. “Tem também algo que é feito essencialmente por mulheres, que é o trabalho de gestão dos cuidados, a responsabilidade por esses cuidados”, afirmou.
Ela exemplificou: quando uma criança adoece, é a mulher quem, na maioria das vezes, falta ao trabalho remunerado para prestar o cuidado necessário. Ela explicou que esse fenômeno leva o nome de “carga mental“.
“Que é feito como se fosse algo natural, que é a mulher que tem que fazer”, disse.
Impactos no mercado de trabalho
A sobrecarga com os cuidados tem reflexos diretos na trajetória profissional das mulheres. Ainda de acordo com os dados do IBGE, a taxa de participação no mercado de trabalho de mulheres com crianças de até 6 anos é de 56%. Entre os homens com filhos nesta mesma faixa etária, o índice chega a 89%.
Já entre mulheres sem filhos pequenos, a taxa sobe para 66%, ainda significativamente inferior à masculina, cujo índice é de 82%
Maíra apontou que as desigualdades salariais agravam ainda mais esse cenário. “As mulheres ganham em média 15% a 20% menos que os homens. E, quando a gente fala de mulheres negras é ainda mais evidente, homens brancos ganham 54% mais do que mulheres negras“, afirmou.
Ela ressaltou que o nascimento de uma criança representa um ponto crítico: enquanto as mulheres tendem a se afastar do mercado formal para assumir os cuidados, os homens reforçam o papel de provedores e avançam nas carreiras.
“A mulher não vai progredir na carreira como o homem que está se dedicando mais para isso, ela não vai estar cuidada por questões previdenciárias como o homem”, explicou.
Políticas públicas
Para Maíra, enfrentar essa realidade exige uma resposta multifatorial do poder público, focada na questão do cuidado.
“É creche que dure o tempo da mulher deixar a criança, trabalhar, voltar e a creche ainda estar aberta, escola em tempo integral, é centro-dia para que os idosos ou quem necessite possa ir, para que essas mulheres possam trabalhar, porque senão elas vão abrir mão da sua renda”, afirmou.
A socióloga alertou ainda para o cenário demográfico futuro. Segundo ela, daqui a 15 anos o Brasil poderá ter três vezes o número atual de idosos, o que tende a aumentar a demanda por cuidados.
“Se a gente for pelo natural, que é uma construção social, evidentemente, as mulheres vão ser sobrecarregadas, elas que vão abrir mão das suas carreiras, sobretudo nas famílias de baixa renda, do seu trabalho remunerado para ficar nesse trabalho que é invisível”, disse.
Para ela, o tema deve ser tratado como uma política de governo, e não como uma questão individual de cada família: “Colocar como uma questão individual sobrecarrega mulheres. Só que todos precisamos ser cuidados.”
Cuidado é aprendido
Maíra também abordou a origem cultural da divisão desigual dos cuidados. Segundo ela, as mulheres são condicionadas desde a infância a assumir essas responsabilidades.
“O cuidado é aprendido. As mulheres aprendem isso desde pequenininhas, quando as meninas são mais convidadas a cuidar, ajudar com os cuidados da casa do que os meninos”, explicou.
A especialista, no entanto, foi enfática ao afirmar que essa divisão pode e deve mudar: “Assim como as mulheres aprendem, os homens são plenamente capazes de aprender. Quando a gente fala de compartilhar [as tarefas] e não ajudar, é sobre isso.”