A escassez de mão de obra é apontada como o principal desafio enfrentado pelos produtores rurais brasileiros, segundo estudo encomendado pelo Sistema CNA/Senar. O levantamento mostra que 94,8% dos produtores consultados enfrentam algum tipo de dificuldade para contratar trabalhadores, enquanto 44,5% consideram a disponibilidade de mão de obra o principal problema do setor, à frente de custos, clima e preços.
O estudo “Produtividade e Emprego: Novas Diretrizes para as Políticas Públicas” foi apresentado nesta terça-feira (25), em São Paulo, durante o evento “Agenda Brasil – Crescimento, Emprego e Competitividade”. A análise reúne dados sobre o mercado de trabalho e a agropecuária, pesquisa com empregadores e entrevistas com produtores e empresas de tecnologia.
De acordo com o levantamento, 89% dos produtores avaliam que a dificuldade de encontrar trabalhadores tem impacto moderado, alto ou muito alto sobre a propriedade. Além disso, 88,3% relatam alguma consequência produtiva decorrente da falta de mão de obra. Entre os efeitos estão atrasos em operações, adiamento ou desistência de planos de expansão, aumento dos custos trabalhistas, antecipação de investimentos em mecanização e automação e redução da produção.
Transformações no mercado de trabalho
O estudo aponta que a redução da disponibilidade de trabalhadores para a agropecuária é resultado de mudanças estruturais que vêm ocorrendo há décadas. A urbanização reduziu gradualmente a base rural, enquanto o aumento da escolaridade ampliou as oportunidades de trabalho fora do campo.
Entre 2012 e 2025, a participação da agropecuária no mercado de trabalho caiu 0,67 ponto percentual, de 5,68% para 5,01%, segundo a análise. No mesmo período, houve aumento da escolaridade dos trabalhadores e crescimento dos salários relativos pagos pelo setor.
A necessidade de atrair e reter profissionais também elevou a remuneração no campo. O estudo mostra que o diferencial salarial da agropecuária em relação ao restante da economia melhorou entre 2012 e 2025 em diferentes níveis de escolaridade. Entre trabalhadores com ensino superior, por exemplo, a relação entre a remuneração no agro e a média da economia passou de 0,87 para 0,96. Para técnicos de nível médio, a relação aumentou de 0,82 para 1,27.
O aumento salarial aparece como uma das estratégias utilizadas pelo setor para enfrentar a escassez. Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apresentados no estudo, o rendimento real por hora dos empregados na agropecuária cresceu mais do que no conjunto da economia entre 2012 e 2015 e também no período de 2021 a 2025.
Problema ultrapassa o campo
A pesquisa ressalta que a oferta limitada de trabalhadores não é um problema restrito à agropecuária. Em 2025, havia 6,3 milhões de pessoas sem trabalho que procuravam emprego, 5,5 milhões em idade ativa que não trabalhavam nem procuravam emprego e 4,5 milhões de pessoas que trabalhavam ocasionalmente. Somados, esses grupos representavam uma subutilização de 14,4% da força de trabalho.
O cenário, no entanto, é heterogêneo entre as regiões brasileiras. O estudo aponta diferenças relevantes nas taxas de desemprego e de subutilização entre Norte, Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste, indicando que os impactos da escassez de trabalhadores e as características da oferta de mão de obra variam de acordo com cada região.
Bolsa Família
O estudo também analisa os possíveis efeitos dos programas de transferência de renda sobre a oferta de trabalho. Segundo estimativa apresentada no levantamento, o impacto do Bolsa Família sobre a oferta de trabalho seria de redução de 3,07 pontos percentuais na área rural, enquanto estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) citado no documento estima impacto entre 2,2 e 4,7 pontos percentuais no Brasil.
Na pesquisa com produtores rurais, 83% dos entrevistados afirmaram ter percebido efeitos dos programas de transferência de renda sobre a dificuldade de encontrar trabalhadores. Além disso, 63,2% disseram já ter vivenciado diversas vezes situações em que candidatos recusaram vagas para não perder o benefício.
Tecnologia e produtividade
Diante da dificuldade de contratação, os produtores têm recorrido cada vez mais à tecnologia. O aumento da produção elevou a demanda por trabalhadores e, ao mesmo tempo, a própria escassez estimulou a mecanização como forma de reduzir a necessidade de mão de obra.
Entre as respostas adotadas pelo setor estão investimentos em tecnologia para aumentar a produtividade e aumento dos salários para atrair e reter funcionários. Ao todo, 88,8% dos produtores pesquisados afirmaram ter buscado alguma alternativa para contornar a escassez de trabalhadores.
O avanço da produtividade aparece como um dos principais pontos positivos destacados pelo estudo. Entre 1995 e 2025, a produtividade do trabalho na agropecuária brasileira aumentou 515%, ante crescimento de 28% no conjunto da economia.
Apesar do avanço, o levantamento aponta que ainda existe uma distância significativa em relação às economias mais desenvolvidas. Entre 1997 e 2024, a produtividade do trabalho agropecuário brasileiro cresceu 218%, acima da expansão de 125% registrada no mundo. Mesmo assim, o valor adicionado por trabalhador no Brasil era de US$ 12,7 mil, contra US$ 29,3 mil na média dos países de alta renda e US$ 85 mil nos Estados Unidos.
Qualificação e políticas públicas
Para o Sistema CNA/Senar, o desafio daqui para frente é combinar tecnologia, qualificação profissional e políticas públicas capazes de ampliar a produtividade e a disponibilidade de trabalhadores. O documento aponta como frentes de atuação a adoção de tecnologias de fronteira, a redução do custo de acesso ao capital e a incorporação de tecnologia acompanhada de educação, capacitação e estratégias de retenção de profissionais.
A avaliação é que o enfrentamento da escassez de mão de obra não depende apenas da criação de novas vagas. O aumento sustentável da produção exige trabalhadores mais qualificados, maior produtividade e condições para que empresas e produtores tenham acesso às tecnologias necessárias para substituir parte das tarefas intensivas em trabalho.
Nesse cenário, o estudo defende uma agenda de políticas públicas voltada simultaneamente à qualificação profissional, à empregabilidade e ao aumento da produtividade, com o objetivo de transformar as mudanças estruturais do mercado de trabalho em uma oportunidade de crescimento sustentável para o país.