Copa do Mundo chega a quase 100% de ocupação nos estádios após 96 partidas

A Copa do Mundo de 2026 vem se confirmando como sucesso absoluto de público. Até o fim das oitavas de final, que se encerrou nesta semana, 6.259.584 pessoas estiveram presentes nos 96 jogos disputados, representando uma taxa de ocupação de 99,7% e média de 65.204 torcedores por partida.

O total da edição atual representa quase o dobro dos recordes anteriores, que são do torneio dos EUA de 1994, com 3.587.538 de fãs, e do Brasil em 2014, com 3.429.873.

Entre os estádios que receberam os maiores públicos estão justamente aqueles com maior capacidade, caso principal do Azteca, na Cidade do México, que teve 100% dos ingressos vendidos nos cinco jogos disputados no local, totalizando 404.120 espectadores.

Para Robson Carlo, sócio-fundador da FutebolCard, alguns fatores importantes contribuem para as excelentes médias de públicos em Copas do Mundo, e uma delas vai além das questões financeiras.

“Existe um público internacional com alto poder aquisitivo que enxerga a Copa como uma experiência de vida, e não apenas como um jogo de futebol. São pessoas que já gastam milhares de dólares com viagens, hospedagem e hospitalidade e, nesse contexto, o valor do ingresso acaba representando uma parcela relativamente pequena do investimento total”, exemplifica.

Segundo ele, não havia a mínima chance dos estádios não estarem lotados na edição atual do evento, como se chegou a falar antes do início da Copa. “Eu nunca acreditei que haveria estádios vazios. Uma Copa do Mundo é um evento único, que atrai públicos muito diferentes: o torcedor tradicional, o turista, o fã que viaja o mundo atrás de grandes eventos e também o consumidor que decide a viagem de última hora”, disse.

Ainda de acordo com Robson, uma outra mudança significativa foi a forma de comercialização os ingressos. “O preço dinâmico permite que a organização ajuste os valores de acordo com a demanda em tempo real, algo que já acontece há anos em companhias aéreas, hotéis e em ligas como NFL, NBA e MLB. Isso ajuda a maximizar a receita sem necessariamente comprometer a ocupação. Quando existe uma demanda global como a da Copa, o mercado acaba encontrando seu ponto de equilíbrio. Alguns jogos ficam mais caros, outros permanecem acessíveis, e a ocupação tende a se manter alta. Na minha visão, o maior aprendizado é que hoje o ingresso deixou de ser apenas um bilhete de acesso. Ele passou a ser um ativo cuja precificação acompanha o interesse do mercado”, aponta.

Para especialistas, o fato dos estádios terem quase 100% de ocupação mesmo com preços caríssimos comprova que existe um público que trata a Copa do Mundo como um grande evento no calendário pessoal.

“Os números mostram que em eventos de grande apelo, a percepção de valor muitas vezes supera a sensibilidade ao preço. Mesmo diante de ingressos mais caros, a demanda permaneceu extremamente elevada, o que demonstra a força do produto Copa do Mundo e a capacidade do mercado de absorver estratégias mais sofisticadas de precificação”, pontua Moises Assayag, sócio-diretor da Channel Associados e especialista em finanças do futebol.

“Esses dados confirmam uma tendência que acompanhamos há anos: o torcedor busca cada vez mais experiências completas e memoráveis, desenvolvendo pacotes exclusivos que unem hospitalidade, conforto, segurança e suporte especializado em cada etapa da jornada. Esse movimento se refletiu diretamente na alta procura pelos nossos produtos, reforçando a importância de oferecer um serviço de excelência para um público cada vez mais exigente”, comenta Joaquim Lo Prete, General Manager da ABSOLUT Sport no Brasil, agência de experiências esportivas e que comercializa pacotes de viagem para os principais eventos do mundo.

Já para outros executivos especializados neste segmento, um dos fatores de sucesso é que a Copa do Mundo de 2026 adotou o sistema de preços dinâmicos para a definição do valor dos ingressos. Na prática, o valor das entradas varia de acordo com a demanda, podendo sofrer alterações para cima, conforme a alta procura, ou para baixo, em caso de baixa demanda. O modelo já é utilizado em eventos dos esportes norte-americanos – como no Super Bowl – e, para a Copa do Mundo, tem resultado em altos preços, com entradas que já viram o valor triplicar e ultrapassar a casa dos R$ 161 mil para a final.

Tal modelo também tem sido adotado em eventos no ramo do entretenimento ao redor do mundo, a exemplo de shows. Um dos principais casos foi na venda de ingressos para o reencontro da banda Oasis, em 2025. No Reino Unido, muitos fãs relataram que os valores aumentaram significativamente durante a compra, com casos de preços que dobraram ou triplicaram.

“O sistema de precificação dinâmica é bastante utilizado no exterior para eventos esportivos e de entretenimento. Caso haja sucesso desse modelo na Copa do Mundo, a maior competição de futebol do planeta, o método deve começar a ser testado no Brasil em breve. Porém, é muito importante que os organizadores dos grandes espetáculos esportivos estejam atentos às características específicas da nossa cultura de estádio e do nosso modo de torcer”, avalia Pedro Weber, sócio da Chenus, empresa especializada em investimentos no esporte.

Um outro ponto destacado é com relação à tecnologia nos estádios, que mudou a percepção e a forma como os torcedores encaram o futebol.

“Essa média de quase 100% de taxa de ocupação é um marco significativo e mostra o poder de mobilização que tem o futebol, em especial em um momento tão importante como a Copa do Mundo. Dentro desse contexto, é fundamental otimizar a conexão com os torcedores, ao impulsionar, por exemplo, as experiências desde a compra do ingresso ao período no estádio. Um dos atrativos desta edição da Copa do Mundo que cito nesse sentido foi o lançamento do Fan ID, que amplia a experiência dos portadores de ingressos também para o ambiente digital”, destaca Tironi Paz Ortiz, CEO da Imply ElevenTickets, empresa que oferece tecnologias e serviços para clubes e eventos.

Ao contrário de Copas do Mundo mais antigas, os camarotes corporativos também ganharam espaço nos principais estádios do mundo e se tornaram uma opção até para aquele fãs que gostam menos de futebol, trazendo serviços luxuosos de gastronomia, perfumaria e barbearia, além de inúmeras ativações de patrocinadores.

“Os números mostram que o torcedor não busca apenas assistir ao jogo, mas viver uma experiência completa. O público está disposto a investir em conforto, serviços diferenciados e momentos exclusivos. O futebol continua sendo o grande atrativo, mas a experiência ao redor do evento se tornou um fator decisivo para muitos fãs”, encerra Léo Rizzo, CEO da Soccer Hospitality, empresa especializada em ambientes premiums, que possui camarotes em dez estádios brasileiros.

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