Os militares americanos escoltaram 40 embarcações comerciais que transportavam 18 milhões de barris de petróleo pelo Estreito de Ormuz, um recorde em tempos de guerra, enquanto Irã e Estados Unidos trocavam uma nova rodada de ataques na terça-feira (2), disseram à CNN dois funcionários americanos familiarizados com as operações.
Antes do início da guerra, há pouco mais de seis meses, cerca de 20 milhões de barris por dia passavam pelo estreito.
Os EUA utilizaram uma série de recursos aéreos, marítimos e espaciais não apenas para continuar atacando a capacidade do Irã de atingir embarcações comerciais no estreito, mas também para repelir simultaneamente ondas de ataques com drones enquanto realizavam as arriscadas operações de escolta dos navios que transportavam milhões de barris de petróleo, disseram os funcionários.
As forças americanas também neutralizaram mísseis de cruzeiro antinavio durante a operação de escolta, acrescentou o primeiro funcionário.
A operação ocorre enquanto os EUA concentram sua estratégia de guerra em priorizar ataques contra alvos ao redor do estreito, realizar operações de escolta de embarcações comerciais pela importante via marítima e manter o bloqueio naval aos portos iranianos, como parte de uma “pressão total” do governo Trump para aumentar a pressão econômica sobre a liderança do regime, segundo os funcionários.
Embora a operação de terça-feira tenha sido bem-sucedida, os funcionários não têm ilusões de que uma solução rápida para o conflito esteja próxima. As empresas de energia continuam receosas diante dos enormes riscos envolvidos no envio de seus navios pelo estreito, mesmo com escoltas militares. E os preços da energia permanecem elevados, provocando turbulência no mercado global de títulos.
As outras prioridades declaradas pelo presidente Donald Trump, incluindo operações voltadas para eliminar elementos do programa nuclear iraniano, foram efetivamente colocadas em segundo plano por enquanto, segundo o primeiro funcionário. Ele reiterou que o Comando Central dos EUA recebeu instruções para concentrar todos os seus esforços no estreito e impedir que as exportações de petróleo entrem ou saiam dos portos iranianos.
O próprio Trump sugeriu recentemente estar satisfeito em deixar enterrado o estoque iraniano de urânio altamente enriquecido — que não foi completamente destruído nos ataques americanos do ano passado contra três importantes instalações nucleares — e monitorá-lo por meio de imagens de satélite, apesar de anteriormente insistir que garantir a segurança desse material era uma prioridade máxima no conflito atual.
Na terça-feira, os EUA realizaram a operação multifacetada de acordo com a estratégia atual, atingindo quase 60 alvos militares ao redor do estreito — incluindo instalações de defesa aérea, sistemas de radar, ativos marítimos, capacidades de colocação de minas e locais de comunicação — enquanto simultaneamente escoltavam os navios, disseram os dois funcionários à CNN.
Os militares americanos esperam continuar realizando ataques ofensivos próximos ao estreito, em parte porque o Irã demonstrou ter capacidade de reconstruir suas capacidades de uma maneira que exige manutenção constante, disse o segundo funcionário. Esses ataques equivalem a “cortar a grama” ou a um jogo de “acertar a toupeira”, com o objetivo de reduzir a capacidade do Irã de ameaçar navios comerciais.
Reduzindo gradualmente a influência do Irã
Mas os ataques também são uma parte fundamental da estratégia militar mais ampla para reduzir sistematicamente a capacidade do Irã de usar o estreito como instrumento de pressão.
O bloqueio americano, enquanto isso, impediu o Irã de exportar petróleo desde julho, disse o segundo funcionário.
Trump afirmou na quarta-feira que a mais recente rodada de ataques dos EUA foi além dos sistemas de radar iranianos, em uma tentativa de eliminar a capacidade do país de rastrear navios pelo Estreito de Ormuz.
“Eles estavam tentando ver os navios”, disse ele no Salão Oval. “Eles não conseguem vê-los porque não têm radar, porque nós o destruímos, e destruímos muito mais do que o radar na noite passada.”
Trump não especificou o que mais foi atingido no ataque. Mas voltou a insistir que os EUA mantêm o controle do estreito e demonstraram que podem tanto atacar instalações iranianas ao longo da costa quanto defender os navios contra qualquer ataque.
Ainda assim, resta saber se as operações militares em várias frentes acabarão forçando o Irã a capitular — e, mesmo que isso aconteça, quanto tempo poderá levar.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, fez referência a um aumento no fluxo de petróleo pelo estreito no início desta semana, em meio a uma recente escalada das tensões entre EUA e Irã. Em entrevista à CNBC, ele disse que as exportações atingiram um recorde de guerra na segunda-feira, com mais de 17 milhões de barris por dia. “Isso não é controle iraniano do estreito”, disse Bessent.
Funcionários americanos disseram à CNN que acreditam que o estreito está se tornando um ativo de menor valor estratégico para o Irã, apontando os avanços recentes como evidência dessa avaliação. Mas o Irã, por sua vez, provavelmente ainda considera sua capacidade de influenciar negativamente o fluxo de tráfego por meio de ameaças críveis contra navios comerciais um instrumento de pressão. E os transportadores, de modo geral, continuam céticos quanto à capacidade dos EUA de implementar um sistema sustentável.
Funcionários do governo Trump têm insistido repetidamente que mais petróleo está passando pelo estreito do que se sabe publicamente, devido à prática cada vez mais comum de os navios desligarem seus transponders para não serem detectados enquanto atravessam a via marítima. Segundo o primeiro funcionário familiarizado com a operação, a maioria, se não todas, das 40 embarcações comerciais que atravessaram o Estreito de Ormuz na terça-feira desligou seus transponders para evitar ser detectada.
Em agosto, o secretário de Energia, Chris Wright, afirmou que as exportações de petróleo do Oriente Médio haviam subido, durante certo período, aos níveis anteriores à guerra.
Ceticismo sobre alegações de “controle total”
Apesar de semanas de esforços concentrados para assumir o controle do estreito, o governo continua enfrentando forte ceticismo de autoridades do setor e analistas, que dizem que os EUA ainda não demonstraram ser capazes de sustentar de maneira confiável suas alegações de “controle total” da rota marítima.
“É seguro dizer que o governo não conseguiu conquistar credibilidade”, disse uma pessoa familiarizada com a dinâmica do setor, acrescentando que, mesmo que os picos diários no volume de embarques sejam legítimos, “não conheço ninguém que ache que a média seja tão alta”.
Enquanto isso, as empresas de transporte comercial que optam por atravessar o estreito estão tomando essas decisões, em grande parte, caso a caso, disseram duas pessoas familiarizadas com a situação. O preço para fretar um navio-tanque de petróleo para atravessar o estreito também disparou, com algumas estimativas colocando o custo em mais de US$ 500 mil por dia, oferecendo um incentivo financeiro adicional para empresas de fretamento dispostas a assumir o risco da viagem.
Mas o setor, de modo geral, ainda busca mais garantias. O custo do seguro dos navios, que disparou no início da guerra, continua elevado, acrescentando mais um fator aos difíceis cálculos feitos pelas empresas marítimas. E, mesmo quando não são bem-sucedidos, os relatos contínuos de ataques iranianos contra navios que atravessam o estreito continuam funcionando como um fator de dissuasão.
O petróleo também representa apenas uma das formas de carga relacionada à energia que passam pela via marítima. Navios-tanque que transportam outras fontes de energia, especialmente gás natural liquefeito, parecem estar demonstrando ainda mais cautela devido às consequências potencialmente catastróficas caso embarcações transportando esse tipo de carga sejam atingidas por um drone, mina ou míssil iraniano, segundo o primeiro funcionário familiarizado com as operações militares americanas em andamento ao redor do Irã.
Alguns funcionários americanos reconhecem que provavelmente serão necessários tempo e persistência para que os militares dos EUA não apenas continuem trabalhando na lista ainda não concluída de alvos militares iranianos próximos ao estreito — capacidades que foram parcialmente reconstruídas durante a recente pausa nos combates —, mas também convençam o setor de transporte marítimo de que é seguro navegar pela região.
A segunda tarefa envolve realizar operações consistentes de escolta, como a que ocorreu na terça-feira, nas quais as forças americanas conduzem embarcações comerciais por uma passagem que foi desminada. Até o próximo mês, os militares americanos esperam ampliar essa faixa de navegação pelo estreito para permitir que os navios manobrem com mais liberdade — com o objetivo de aumentar gradualmente a quantidade de petróleo que passa pela via marítima.
A CNN identificou as embarcações comerciais específicas, de entrada e de saída, que fizeram a travessia do estreito na terça-feira — navios com bandeiras de vários países estrangeiros, da Arábia Saudita à França.
No início do conflito, os militares americanos tentaram lançar uma operação de escolta semelhante — batizada de Projeto Freedom —, que foi rapidamente encerrada depois que o anúncio pegou de surpresa importantes aliados do Golfo, principalmente a Arábia Saudita. O país chegou a ameaçar bloquear o acesso americano a bases e ao espaço aéreo para operações contra o Irã.
Meses depois, a guerra parece ter entrado em uma nova fase e, com os rebeldes houthis agora lançando ataques contra a Arábia Saudita, há mais apoio de parceiros regionais às operações de escolta pelo estreito, disse o primeiro funcionário familiarizado com a operação.