Uma das perguntas que mais escuto no consultório é se a cirurgia plástica melhora a autoestima. Minha resposta costuma ser: ela pode ajudar, e muito, mas não resolve tudo.
Existe uma diferença importante entre modificar uma característica física que provoca incômodo real e esperar que uma cirurgia transforme a maneira como alguém se enxerga por completo.
Quando a cirurgia plástica pode ajudar na autoestima?
Depois de mais de duas décadas trabalhando com cirurgia plástica, aprendi que entender essa diferença é tão importante quanto escolher a técnica adequada para cada paciente.
A autoestima não depende apenas da aparência. Ela é construída pela forma como a pessoa percebe o próprio valor, pelas experiências que acumulou, pelos relacionamentos, pela saúde emocional e, também, pela relação que mantém com o corpo. Por isso, uma mudança física pode melhorar essa relação, mas dificilmente consegue, sozinha, reorganizar todas essas outras dimensões.
Na minha experiência, a cirurgia tende a contribuir de maneira mais positiva quando existe uma queixa física específica, persistente e proporcional. É diferente dizer “não gosto do excesso de pele no abdômen depois de emagrecer” e dizer “preciso mudar meu corpo para finalmente ser feliz”.
No primeiro caso, há uma questão concreta que pode ser avaliada tecnicamente. No segundo, existe uma expectativa muito maior depositada no procedimento.
Vejo pacientes que convivem durante anos com desconfortos relacionados às mamas, ao abdômen, ao contorno corporal ou às mudanças provocadas pelo envelhecimento. Quando a indicação é adequada e a expectativa é realista, a cirurgia pode diminuir esse incômodo e fazer com que a pessoa se sinta mais confortável com a própria imagem.
Isso não significa criar uma nova identidade. Significa aproximar a imagem corporal da maneira como aquela pessoa gostaria de se perceber, respeitando seus limites anatômicos e suas características individuais.
Quando a cirurgia plástica não resolve a autoestima
O sinal de alerta aparece quando toda a insatisfação pessoal é colocada sobre uma característica física.
Se alguém acredita que uma cirurgia vai salvar um relacionamento, garantir aceitação social, resolver inseguranças profundas ou mudar completamente a própria vida, precisamos conversar antes de falar em procedimento.
A cirurgia plástica não trata rejeição, solidão, ansiedade ou conflitos de identidade. Também não deve funcionar como resposta à pressão de parceiros, familiares, redes sociais ou padrões estéticos.
Outro ponto que observo é a insatisfação que muda constantemente de lugar. A pessoa corrige algo que a incomodava e, pouco tempo depois, encontra outro “defeito” que passa a ocupar a mesma importância. Nesses casos, realizar procedimentos sucessivos sem compreender a origem dessa percepção pode alimentar o problema, em vez de solucioná-lo.
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Como saber se o problema não está no corpo?
Existem alguns sinais que merecem atenção. Entre eles estão a preocupação excessiva com pequenas características físicas, a comparação constante com outras pessoas, o uso frequente de filtros como referência de aparência, a dificuldade de aceitar resultados tecnicamente adequados e a expectativa de perfeição.
Também considero importante observar quanto espaço essa preocupação ocupa na rotina. Se a aparência começa a determinar se a pessoa sai de casa, encontra amigos, trabalha, mantém relacionamentos ou consegue se olhar no espelho sem sofrimento intenso, talvez a questão não seja apenas estética.
Nessas situações, adiar uma cirurgia pode ser uma decisão médica responsável.
Por que a avaliação emocional importa antes da cirurgia plástica?
Eu não acredito que corpo e mente devam ser avaliados como territórios separados. Uma cirurgia modifica o corpo, mas o resultado será interpretado pela mente de quem passou pelo procedimento.
Por isso, procuro entender não apenas o que o paciente deseja mudar, mas por que deseja mudar e o que espera que aconteça depois.
Quando percebo que existe uma expectativa incompatível com aquilo que a cirurgia pode oferecer, prefiro conversar com clareza. Em algumas situações, inclusive, o acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, antes de qualquer decisão cirúrgica, pode ser mais importante do que o próprio procedimento.
Isso não significa que a pessoa esteja impedida de realizar uma cirurgia no futuro. Significa apenas que precisamos cuidar primeiro daquilo que a cirurgia não consegue alcançar.
A cirurgia plástica pode melhorar a autoestima?
Sim, pode. Principalmente quando existe uma indicação correta, uma queixa objetiva, expectativas realistas e uma decisão tomada pelo próprio paciente.
Mas eu não gosto da ideia de vender cirurgia como caminho para felicidade ou amor próprio. Nenhum procedimento deveria carregar essa responsabilidade.
Meu papel como cirurgião não é convencer alguém a operar. É avaliar se existe indicação, explicar possibilidades e limites e, inclusive, dizer não quando acredito que a cirurgia não será capaz de entregar aquilo que o paciente está procurando.
A melhor cirurgia não é aquela que transforma uma pessoa em outra. É aquela que, quando realmente indicada, ajuda o paciente a se sentir mais confortável consigo mesmo, sem criar a expectativa de que um bisturi possa resolver questões que nunca estiveram apenas no corpo.
*Texto escrito por Dr. Marco Dallegrave (CRM/PR 17086 | RQE 13428), Cirurgião Plástico e membro da SBCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica)