China muda fórmula de ração animal e impulsiona sorgo

O aumento da demanda da China por sorgo tem alavancado as exportações brasileiras e sustentado altos preços aos do milho nos portos nacionais. Atualmente, o sorgo é negociado em torno de R$ 70 por saca, já o milho próximo de R$ 64, refletindo o forte interesse do mercado chinês pelo grão.

Para Ronaldo Fernandes, consultor e analista de mercado da Royal Rural, o movimento ocorre em meio a uma mudança estratégica na formulação de rações animais no país chinês.

“A China por uma razão interna está refazendo a fórmula de ração aumentando DDG (grãos secos de destilaria) e sorgo e, pelo menos, querendo reduzir farelo e milho”, explicou Fernandes.

Apesar da valorização convincente do sorgo, o cenário não tem provocado uma elevação nos preços do milho, pois a demanda chinesa está concentrada especificamente no sorgo.

“A China tem milho e não tem sorgo, e isso, não quer dizer que esse preço de sorgo vai puxar o preço de milho, ao contrário, o sorgo subiu e o milho não, e deve seguir assim, essa demanda tem prazo, tem meta, atingiu o preço volta,” concluiu o analista de mercado da Royal Rural.

Diversificação de matérias-primas

A estratégia chinesa está relacionada tanto à busca por maior eficiência na alimentação animal quanto à diversificação das matérias-primas utilizadas no setor. Embora o país mantenha estoques de milho, a oferta doméstica de sorgo é insuficiente para atender à demanda, tornando necessária a importação do cereal.

Esse contexto tem favorecido o Brasil, que vem ampliando sua participação no comércio internacional de sorgo.

Segundo Fernandes, até o momento, o país já exportou mais de 600 mil toneladas do produto e a expectativa do mercado é que os embarques possam alcançar a marca de 1 milhão de toneladas nos próximos meses.

Produção nacional

“Atualmente o Brasil produz em torno de 7,5 milhões e 8 milhões de toneladas de sorgo grãos. Tem outras áreas de sorgo que são destinadas direto para silagem e pastoreio”, disse Paulo Bertolini, presidente da Abramilho (Associação Brasileira dos Produtores de Milho)

Segundo Bertolini, com esse volume, o país ocupa hoje uma posição relevante no ranking global de produtores de sorgo.

“Isso já nos coloca entre o terceiro e o segundo maior produtor mundial de sorgo, só que com uma perspectiva de que a gente avance muito rapidamente nessa cultura no Brasil, e logo, nós temos a possibilidade de nos tornarmos o maior produtor mundial de sorgo”, frisou.

Dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) mostram que o sorgo teve um acréscimo de 1,5 milhão de toneladas em relação a produção da safra anterior e um aumento de 31,7% ou de 516,6 mil hectares.

O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho ainda ressaltou que sorgo é plantado principalmente no centro-oeste, e que o estado de Goiás é um grande produtor de sorgo no Brasil, mas o sorgo comparativamente ao milho, ele tem uma amplitude maior de possibilidades de plantio.

No entanto, a Abramilho aponta que o potencial de crescimento do sorgo vai muito além da região central do país. “O Estado de São Paulo pode crescer muito no sorgo, inclusive na rotação de cultura com a cana-de-açúcar, o Paraná em função da facilidade logística, o Mato Grosso do Sul, o estado de Minas Gerais. Então, há uma possibilidade de o sorgo crescer bastante em todas as regiões do Brasil”, destacou a Associação.

Paulo Bertolini ainda acrescentou que a Bahia, por exemplo, exportou no mês passado um navio inteiro, 30 mil toneladas de sorgo para África.

“Então isso mostra que há possibilidade, há um mercado para isso, há condições de produção. O que a gente precisa fazer agora é abrir esses mercados lá fora e melhorar a nossa logística interna,” acrescentou.

Mercado internacional

A Associação Brasileira dos Produtores de Milho explicou que originalmente a China tem importado muito sorgo, principalmente os Estados Unidos, algo como 10 milhões de toneladas todos os anos. E por uma questão geopolítica e talvez estratégica, o país chinês têm colocado o Brasil como uma opção de fornecimento de sorgo. No Brasil, o grão também tem sido utilizado para produção de etanol.

Nesse contexto, o Brasil surge como uma alternativa estratégica, tanto do ponto de vista comercial quanto geopolítico. Paulo explicou que atualmente, apenas três ou quatro empresas nacionais estão habilitadas pelas autoridades chinesas para realizar embarques do produto, mas que existe uma lista de mais empresas que estão aptas a realizarem exportações.

“Existe dentro do Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) uma lista de mais de 100 empresas que solicitaram o registro e já estão registradas no Brasil, então aptas para fazer os processos de exportação de sorgo pelo Ministério da Agricultura, mas que aguardam que a China também faça essa autorização para essas demais empresas.”

“Na medida que isso aconteça, há uma possibilidade de um aumento significativo e rápido das exportações,” concluiu o presidente da Abramilho.

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