Os democratas-cristãos do chanceler alemão Friedrich Merz não têm mais mandato para governar o estado da Saxônia-Anhalt, no leste do país, afirmou nesta segunda-feira (7) o atual primeiro-ministro estadual da CDU (União Democrata-Cristã da Alemanha), Sven Schulze.
“Nós, da CDU, não temos mais mandato para governar. Estamos na oposição. O mandato para governar agora pertence à AfD (Alternativa para a Alemanha), e levarei esse resultado à direção do partido esta noite”, disse em coletiva Schulze, que concorreu contra Ulrich Siegmund, da AfD.
Já o chanceler Friedrich Merz afirmou no mesmo evento que a vitória do partido de extrema direita no leste abalou o CDU – que é conservador – e mostrou que será necessária uma grande revisão de seus rumos. “Isso nos abala até as as bases. Não podemos simplesmente continuar como antes, nem eu, nem o governo federal”, disse.
Merz admitiu que o resultado não era esperado e que todos estavam em “choque”, mas aceitavam o resultado. O mandatário afirmou que a vitória do partido rival foi a pior derrota do CDU em décadas e terá “consequências, inclusive internacionalmente”.
As instituições alemãs, porém, continuam estáveis, acrescentou ele. “Temos uma Constituição forte; temos todas as ferramentas para defendê-la contra um governo estadual de extrema direita, mas nosso sistema partidário está passando por uma mudança tectônica.”
Coalizão é descartada
O chanceler Friedrich Merz descartou qualquer possibilidade de trabalhar com a AfD em Saxônia-Anhalt. O partido tenta obter apoio de parlamentares dos conservadores para governar o estado. Seria a primeira vez que um partido de extrema direita chegaria ao poder em nível estadual na Alemanha do pós-guerra.
A AfD, contrária à imigração e favorável à Rússia, conquistou quase 44% dos votos. O resultado evidenciou a forte impopularidade da coalizão de governo de Merz e também provocou preocupação em países vizinhos, como França e Polônia.
A legenda, que defende a deportação de imigrantes, o fim do apoio à Ucrânia e a retomada das relações com Moscou, não conseguiu, porém, maioria absoluta no Parlamento estadual. O partido conquistou 39 das 83 cadeiras e espera atrair parlamentares conservadores individualmente.
O resultado das eleições pode colocar à prova a recusa histórica dos principais partidos alemães, incluindo a (CDU) União Democrata-Cristã, de trabalhar com a AfD. A política, conhecida como “cordão sanitário”, é considerada antidemocrática pelo grupo de extrema direita.
Merz, apontado por pesquisas de opinião como o chanceler mais impopular da história moderna da Alemanha, enfrentará novas eleições estaduais nas próximas semanas e ao longo do próximo ano. Ele espera que uma combinação de reformas e aumento de gastos em algumas áreas ajude a recuperar o crescimento da maior economia da Europa.
Esquerda é uma possível parceira para AfD
O único partido alemão que sinalizou disposição para trabalhar com a AfD é o populista de esquerda BSW (Aliança Sahra Wagenknecht – Razão e Justiça), que nesta segunda-feira (7) ecoou as críticas contra a política de isolamento da legenda.
O BSW compartilha a oposição da AfD à imigração em massa, que, segundo o partido, prejudica os direitos dos trabalhadores locais. A legenda também defende o fim do apoio alemão à Ucrânia e a retomada das relações com Moscou.
Os dois partidos classificam as sanções contra a Rússia como uma medida de autossabotagem desnecessária, que impede empresas alemãs de terem acesso aos vastos recursos de energia barata da Rússia, dos quais a economia alemã, voltada para as exportações, dependeu durante décadas.
“Paz na Europa” foi o segundo maior fator que influenciou o voto na Saxônia-Anhalt, segundo dados da emissora ARD.
Durante a campanha, a AfD explorou o crescente desencanto com os partidos tradicionais, que a legenda descreve como cansados e distantes da população. O partido ofereceu, em contrapartida, uma série de políticas de linha-dura, a promessa de ruas mais limpas e seguras e a recuperação do orgulho nacional.
Para alguns eleitores, também há nostalgia da vida na antiga Alemanha Oriental, que era governada por um regime comunista.
Segundo o perfil dos eleitores, a AfD teve maior apoio entre os homens: 50% votaram no partido, contra 39% das mulheres. Os eleitores da AfD também tendiam a ter menor segurança econômica e menor nível de escolaridade.
A Saxônia-Anhalt é um estado relativamente pequeno e um dos mais pobres do antigo leste comunista da Alemanha. Alice Weidel, outra co-líder nacional da AfD, classificou o resultado de domingo (6) como um marco e afirmou que o partido pretende conquistar ao menos 40% dos votos na próxima eleição nacional, prevista para 2029.
A AfD foi classificada como extremista de direita pelo órgão local de inteligência interna da Alemanha.
A AfD rejeita as acusações de extremismo, que classifica como alarmismo e um insulto aos milhões de apoiadores do partido.
“Sinal muito preocupante”
Enquanto líderes de extrema direita na Europa comemoraram o resultado como um mandato por mudanças, o bilionário americano Elon Musk também manifestou apoio à AfD.
O ministro das Finanças da França, Roland Lescure, afirmou à rádio RTL que o resultado “envia um sinal muito, muito preocupante”.
“Isso mostra que enfrentamos um grande desafio diante de uma onda populista que está se espalhando pelo mundo e à qual precisamos resistir”, disse Lescure, cujo país realizará eleições nacionais no próximo ano, que podem levar a veterana da extrema direita Marine Le Pen à Presidência da França.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, afirmou que o resultado mostra que a ameaça da extrema direita está “ganhando espaço na Europa e no mundo”.
Eva Umlauf, sobrevivente do campo de concentração nazista de Auschwitz e presidente do Comitê Internacional de Auschwitz, demonstrou consternação.
“Como sobreviventes do Holocausto, nunca teríamos imaginado que um partido de extrema direita voltaria a ocupar o posto de maior grupo parlamentar em um Parlamento estadual alemão”, afirmou. “Esse resultado eleitoral nos assusta.”