A deterioração do cenário fiscal brasileiro tem ampliado a instabilidade econômica, elevado a incerteza sobre os juros e prejudicado o ambiente de investimentos, especialmente para os setores produtivos, como o agronegócio. A avaliação é da sócia da Gibraltar Consulting, Zeina Latif, em entrevista ao CNN Agro News.
Segundo Zeina, o aumento contínuo dos gastos públicos e a ausência de uma perspectiva consistente de ajuste fiscal impedem que o mercado tenha previsibilidade sobre o comportamento da economia nos próximos anos.
“A gente não consegue ter um cenário claro do que vai ser a taxa de juros nos próximos anos no Brasil”, afirmou. Para a economista, a combinação entre dívida pública crescente, incerteza fiscal e juros elevados reduz o interesse por investimentos e compromete o crescimento econômico.
Ela defende que o debate fiscal vai além do controle das contas públicas e passa pela melhora da qualidade dos gastos do governo.
“Tem muitas políticas públicas que não entregam aquilo que prometeram, estão mal focalizadas e têm baixa eficiência“, disse. Na avaliação da economista, um ambiente macroeconômico mais estável depende de maior previsibilidade na gestão fiscal, independentemente dos ciclos políticos.
Ao comentar o cenário internacional, Zeina afirmou que as tensões comerciais envolvendo os Estados Unidos tendem a permanecer, independentemente de mudanças de governo. Para ela, além das questões tarifárias, há um interesse estratégico norte-americano em minerais críticos e terras raras brasileiras, o que amplia o poder de barganha dos Estados Unidos nas negociações comerciais.
Apesar da pressão tarifária, a economista destaca que o Brasil tem conseguido redirecionar parte das exportações para outros mercados. Ela citou que, no primeiro semestre, as vendas para os Estados Unidos recuaram 13%, enquanto os embarques para outros destinos cresceram em ritmo superior, demonstrando capacidade de adaptação do comércio exterior brasileiro. Segundo Zeina, esse desempenho poderia ser ainda melhor caso o país tivesse uma rede mais ampla de acordos comerciais.
Na visão da economista, a proximidade comercial entre Brasil e China também ajuda a explicar a postura dos Estados Unidos em relação ao país. Ela avalia que o objetivo americano é limitar o avanço econômico chinês e pressionar países que mantêm relações comerciais intensas com Pequim, aumentando o ambiente de incerteza para o comércio internacional.
Sobre o abastecimento interno, Zeina rejeitou a ideia de que o crescimento das exportações prejudique o mercado doméstico. Segundo ela, há espaço para ampliar simultaneamente a oferta destinada ao consumo interno por meio do aumento da produtividade, especialmente nas pequenas propriedades rurais.
A economista também defendeu investimentos em tecnologia, melhoria do manejo agrícola e infraestrutura logística para reduzir custos e aumentar a oferta de alimentos. Para ela, elevar a produtividade no campo é o principal caminho para conter a inflação dos alimentos sem comprometer o desempenho das exportações brasileiras.