Um menino canadense de 11 anos morreu de raiva após acordar com um morcego sobre o nariz e a boca.
O caso ocorreu durante uma estadia em uma cabana no norte de Ontário, em 2024, segundo um relato publicado na segunda-feira (29) no Canadian Medical Association Journal.
Assustado ao acordar, o menino — cuja identidade não foi revelada no relato — afastou o morcego do rosto com um movimento brusco. O pai dele capturou o animal em uma panela e o soltou do lado de fora, de acordo com médicos do Departamento de Pediatria e Saúde Infantil da Universidade de Manitoba, no Canadá.
Como a criança não apresentava marcas de mordida visíveis e o comportamento do morcego não parecia errático, seus pais não buscaram atendimento médico.
Porém, 19 dias depois, o menino começou a sentir uma sensação progressiva de formigamento e dormência no lado direito do rosto, seguida de inchaço facial e perda de apetite.
Quatro dias após o início dos sintomas, uma clínica local de atendimento de urgência prescreveu medicamentos para tratar herpes, pois os médicos acreditavam que ele apresentava sintomas de paralisia de Bell causada pelo vírus do herpes.
Três dias depois, ele foi levado ao pronto-socorro de um hospital na cidade de Ontário com dificuldade para engolir e vomitando.
Um exame físico revelou úlceras nas gengivas e leve envolvimento de um nervo no lado direito do rosto que proporciona sensação e controla a mastigação.
A família do menino informou aos médicos sobre o incidente com o morcego e, no dia seguinte, o médico emergencista notificou a autoridade de saúde pública local.
No entanto, o hospital deu alta ao menino com diagnóstico presuntivo de gengivoestomatite herpética, que consiste em feridas nos lábios ou na boca causadas pelo vírus do herpes.
Na manhã seguinte, o menino voltou ao hospital com fraqueza no lado direito do rosto, diminuição da sensibilidade e dificuldade para falar.
Enquanto esperava para ser internado, ele apresentou febre, dificuldade para engolir, confusão e alucinações visuais.
Naquela noite, a condição do menino piorou rapidamente. Ele foi colocado em ventilador e internado na unidade de terapia intensiva pediátrica (UTIP).
“Quando atendemos o paciente na UTIP, suspeitamos de raiva”, disseram os médicos.
Um teste PCR confirmou o diagnóstico de raiva no quarto dia de internação do menino. A Agência Canadense de Inspeção de Alimentos também identificou um vírus da raiva variante do morcego.
O menino morreu no décimo sétimo dia de internação.
Qualquer contato entre humanos e morcegos envolve um risco elevado
A raiva é causada por um vírus que ataca o sistema nervoso central de humanos e outros mamíferos; a doença é quase sempre fatal após o surgimento dos sintomas.
A transmissão ocorre por meio de mordida ou arranhão de um animal infectado, ou se fluidos corporais do animal entrarem em contato com os olhos, nariz, boca ou uma ferida aberta, segundo o site da Associação Canadense de Medicina Veterinária (CVMA).
Embora milhares de casos de raiva em animais sejam confirmados anualmente no Canadá — segundo a CVMA —, a doença é muito rara em humanos no país, com apenas 28 casos registrados desde 1924.
Este paciente foi o primeiro caso registrado de raiva contraída localmente em Ontário desde 1967, segundo os médicos.
Nos Estados Unidos, menos de 10 pessoas morrem de raiva por ano, de acordo com o site dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). No entanto, o CDC afirma que a raiva “representa uma grave ameaça à saúde pública” devido à sua presença na vida selvagem em todo o país, com exceção do Havaí.
Em nível global, a raiva representa um sério risco à saúde em mais de 150 países — principalmente na África e na Ásia —, causando dezenas de milhares de mortes anualmente. Segundo um relatório de 2024 da Organização Mundial da Saúde (OMS), crianças com menos de 15 anos representam 40% das vítimas.
De acordo com a OMS, os cães são responsáveis por 99% dos casos de raiva em humanos; no entanto, nas Américas — onde a doença está controlada —, os morcegos são a principal fonte de transmissão.
No Canadá, gambás e raposas também são transmissores frequentes da doença, segundo a CVMA.
Os sintomas em humanos geralmente surgem entre 20 e 60 dias após a exposição, embora possam começar muito antes ou muito depois, observou a CVMA.
Os sintomas iniciais incluem sinais semelhantes aos da gripe — como febre, dor de cabeça ou fraqueza — ou dor e desconforto no local da mordida. Posteriormente, os sintomas podem evoluir para dificuldade de deglutição, salivação excessiva, espasmos musculares, convulsões, confusão mental, ansiedade, medo de água e comportamento anormal.
A CVMA recomenda não permitir que animais de estimação circulem livremente, evitar contato com animais desconhecidos, relatar comportamentos estranhos em animais selvagens ao controle de animais local ou às autoridades competentes, e proteger as residências contra a entrada de animais selvagens, vedando pontos de acesso e garantindo que as lixeiras estejam bem fechadas.
O CDC também recomenda manter a vacinação antirrábica dos animais de estimação em dia e consultar um médico sobre o risco de exposição à raiva antes de viajar.
Caso seja mordido ou arranhado por um animal, lave bem o ferimento com água e sabão por 15 minutos, aplique álcool isopropílico e procure atendimento médico imediato, orienta a CVMA.
Se administrada a tempo — antes do surgimento dos sintomas —, a profilaxia pós-exposição (PPE) contra a raiva, um tratamento que envolve vacinas e imunoglobulina (um medicamento que reduz a gravidade da infecção), pode prevenir a doença.
Segundo o relatório, não existe tratamento eficaz estabelecido para a raiva após o aparecimento dos sintomas, e a morte geralmente ocorre entre sete e quatorze dias após o início do quadro clínico.
“Morcegos podem ou não apresentar os sinais clássicos da raiva; portanto, qualquer contato direto de humanos com um morcego é considerado de alto risco”, acrescentaram médicos da Universidade de Manitoba.