A edição de 2026 da reunião anual da Asco (American Society of Clinical Oncology), realizada em Chicago entre 29 de maio e 2 de junho, reuniu milhares de especialistas e mais de 7 mil estudos científicos. O congresso consolidou três movimentos interdependentes: personalização, precisão molecular e qualidade de vida como desfecho clínico.
Na prática, isso significa que as abordagens deixam de seguir protocolos únicos (passam a ser individualizadas) e que as novas terapias irão identificar mutações ou proteínas específicas do tumor. Quanto ao sucesso do tratamento, a medida deixa de ser apenas a sobrevida e passa a incluir a preservação da qualidade de vida ao longo de toda a jornada do paciente.
Pílula dobra sobrevida no câncer de pâncreas
Considerado um marco histórico para uma das formas mais letais da doença, a apresentação do estudo RASolute 302 — que avaliou o daraxonrasib em pacientes com câncer de pâncreas metastático já tratados — foi longamente aplaudida na plenária, levando muitos médicos às lágrimas.
A pílula diária atua diretamente sobre a proteína RAS, alterada em mais de 90% dos casos da forma mais comum da doença — alvo considerado intratável por décadas. Entre os pacientes tratados com daraxonrasib, metade viveu mais de 13 meses após iniciar o tratamento — o dobro do tempo observado entre os que receberam quimioterapia convencional.
Câncer de pulmão: dois estudos entram para a sessão plenária
Quando o câncer de pulmão é detectado cedo o suficiente para ser removido por cirurgia, o objetivo passa a ser evitar que ele volte. O estudo LIBRETTO-432 mostrou que o selpercatinibe tomado após a cirurgia por pacientes com uma alteração genética específica chamada fusão RET reduziu em 83% o risco de o câncer voltar ou de o paciente morrer.
Também selecionado, o estudo de fase III HARMONi-6 demonstrou que o ivonescimabe combinado com quimioterapia reduziu o risco de morte em 34% dos pacientes com câncer de pulmão escamoso avançado, em comparação ao tratamento padrão com imunoterapia comum mais quimioterapia. Os achados foram considerados históricos, devido à letalidade da doença.
CAR-T produzido dentro do próprio organismo

Na terapia CAR-T — processo que modifica geneticamente células de defesa do paciente para que passem a reconhecer e atacar o tumor —, esses linfócitos precisam ser coletados, enviados a laboratórios especializados — muitas vezes no exterior — e reinfundidos semanas depois. O novo estudo inMMyCAR propõe eliminar todas essas etapas.
Em vez disso, a técnica reprograma as células de defesa diretamente dentro do corpo, permitindo que elas passem a reconhecer e atacar o tumor ali mesmo. Nos seis primeiros pacientes tratados, todos apresentaram resposta ao tratamento já no primeiro mês, sem registro das complicações neurológicas associadas ao CAR-T convencional.
Câncer de próstata: tratar antes da cirurgia pode reduzir metástases
O estudo PROTEUS testou uma abordagem diferente da habitual no câncer de próstata localizado de alto risco: em vez de operar e decidir sobre tratamentos complementares depois, a ideia é intensificar o tratamento antes da cirurgia. A apalutamida, combinada à terapia hormonal, foi usada por seis meses antes e seis meses depois do procedimento em mais de 2,1 mil pacientes.
Os resultados atingiram os dois objetivos principais da pesquisa. Mais pacientes chegaram à cirurgia sem células cancerosas detectáveis no tecido removido — o que sugere que o tumor foi controlado antes mesmo da operação. Além disso, o risco de desenvolver metástases caiu 20% e a necessidade de tratamentos adicionais foi adiada em mais de três anos.
Dieta mediterrânea reduz risco de recidiva no câncer de mama

Divisor de águas na oncologia integrativa, o estudo MedDiet comprovou cientificamente os efeitos positivos de uma intervenção combinando dieta mediterrânea de baixo índice glicêmico, caminhadas diárias rápidas e suplementação oral de vitamina D em mulheres com câncer de mama de estágio inicial em sete centros italianos.
As pacientes com tumor hormônio-positivo que aderiram de forma consistente ao programa tiveram risco 76% menor de recorrência da doença. A intervenção também foi associada a maior perda de peso e redução da síndrome metabólica — fatores que, segundo os pesquisadores, podem influenciar diretamente o ambiente hormonal que alimenta esse tipo de tumor.
Exercício físico à distância melhora vida de pacientes em imunoterapia
Um estudo brasileiro acompanhou 70 pacientes com câncer avançado em imunoterapia durante 12 semanas de atividade física supervisionada por telemedicina. Os resultados revelaram uma melhora na qualidade de vida e redução de sintomas relacionados ao tratamento.
Um dado que chamou a atenção foi os participantes terem apresentado menos medo de que a doença voltasse ou avançasse. Esse temor da recorrência, embora muito comum entre pacientes com câncer, é um dos aspectos menos avaliados e tratados nas consultas de rotina. O estudo sugere que, mesmo realizadas à distância, as intervenções de suporte se mostraram eficazes.
Telemedicina reduz internações no fim da vida
Outro estudo brasileiro avaliou 116 pacientes com câncer em cuidados paliativos que realizaram consultas remotas nos últimos 30 dias de vida. O acompanhamento por telemedicina foi associado a menores taxas de hospitalização e menos internações em unidade de terapia intensiva.
Além disso, esses pacientes também foram menos submetidos a intervenções invasivas que, nessa fase da doença, não trariam benefício real. Na medicina paliativa moderna, evitar esse tipo de procedimento no fim da vida é considerado um indicador de respeito ao que o paciente e sua família desejam para esse momento.
Biópsia líquida: uso cresce, mas interpretação ainda desafia médicos

Tecnologia que vem transformando o monitoramento e a escolha de tratamentos de câncer de pulmão, a biópsia líquida é um exame de sangue capaz de detectar fragmentos de DNA liberados pelo tumor na corrente sanguínea, permitindo identificar alterações moleculares sem a necessidade de retirar tecido do paciente.
Pesquisa latino-americana OMEGA (LACOG 0424/GBOT) ouviu 178 oncologistas — 85% brasileiros — sobre o uso da técnica no dia a dia. Embora 72,5% utilizem a tecnologia na prática clínica, apenas 30% se sentem confiantes para interpretar os resultados. Entre os que receberam treinamento formal, a taxa de uso chegou a 87,2%.
Teste genômico pode livrar pacientes de quimioterapia no câncer de mama
Outro destaque no congresso, o estudo OPTIMA mostrou que mulheres com câncer de mama receptor hormonal positivo e HER2 negativo — mesmo em casos de alto risco clínico — podem dispensar a quimioterapia com segurança quando um teste genômico de 50 genes indica baixo risco molecular.
Os testes mostraram que, para esse grupo, omitir o tratamento foi tão eficaz quanto mantê-lo, poupando as pacientes dos efeitos colaterais sem comprometer as chances de cura. O achado consolida uma tendência da oncologia moderna: tratar menos, quando o perfil molecular do tumor permite, pode ser tão eficaz quanto tratar mais.
Ao final, o ASCO 2026 deixou uma mensagem clara: a oncologia moderna não se mede mais apenas pela sobrevida. Os novos estudos apontam para uma medicina mais precisa, que intervém menos quando possível e coloca o bem-estar físico e emocional do paciente no centro do tratamento — não como consequência, mas como parte dele.