O Irã colocou fim a dias de relativa calma no Oriente Médio ao lançar o que os EUA classificaram como um ataque “surpresa”, marcando uma mudança notável no padrão do conflito.
Em vez de reagir a um novo ataque americano, Teerã optou por retomar as hostilidades por conta própria, demonstrando uma disposição crescente em utilizar força militar para moldar o curso da guerra segundo seus próprios termos.
Isso, por sua vez, prepara o terreno para uma nova escalada. “Vamos dar uma surra neles”, disse o presidente dos EUA, Donald Trump, em entrevista à Fox News na manhã de quarta-feira (30).
“Vamos atingi-los com força. Eles vão levar uma surra”, acrescentou.
Essa ameaça dificilmente surpreendeu Teerã, que lançou seus mísseis ciente de que isso poderia provocar o retorno dos bombardeiros americanos.
Trump havia atribuído a pausa da semana passada a um pedido do Irã, alegando que eles “pediram de forma muito educada” e queriam negociações.
Teerã nunca se comprometeu publicamente com a pausa recente, embora uma autoridade iraniana de alto escalão tenha declarado que “nossas forças armadas também decidiram não realizar ações militares”.
Isso torna a decisão do Irã de retomar os ataques ainda mais significativa.
Horas depois de sinalizar publicamente que corresponderia à contenção demonstrada pelos EUA, Teerã atacou forças americanas — aparentemente concluindo que aumentar a pressão valia o risco de reiniciar os bombardeios noturnos.
“Algo parece ter mudado fundamentalmente na abordagem do Irã, particularmente em relação à sua disposição de iniciar um ataque caso considere essa a única opção viável”, escreveu Hamid Reza Azizi, pesquisador do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança, na rede social X.
O ataque do Irã ocorreu logo após a reunião do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, com Trump em Washington — encontro que o líder israelense descreveu como “uma das melhores conversas” que ambos já tiveram, em meio a atritos crescentes entre os dois.
Horas antes da reunião, o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, afirmou que queria atacar a infraestrutura energética iraniana, mas foi contido pela administração Trump.
“O ataque parece ter sido um sinal relacionado à visita de Netanyahu à Casa Branca, ocorrida mais cedo naquele dia”, escreveu Azizi.
“Isso sugere que a estratégia militar do Irã pode ter mudado e que Teerã agora está preparada para lançar um ataque preventivo caso detecte sinais de uma ameaça iminente”, disse.
Pouco depois do ataque na Jordânia, as forças armadas dos EUA e da Arábia Saudita realizaram ataques conjuntos contra milícias apoiadas pelo Irã no Iraque.
O CENTCOM (Comando Central dos EUA) apresentou a operação no Iraque não como uma retaliação pelo ataque na Jordânia, mas como uma resposta a mais de 30 ataques com drones contra forças americanas e infraestrutura energética saudita nas 72 horas anteriores.
A escalada ocorrida durante a noite demonstrou como o conflito está se expandindo. A Arábia Saudita, que há muito relutava em ser diretamente arrastada para a guerra, está se envolvendo mais profundamente à medida que enfrenta ameaças em três frentes: os Houthis no Iêmen, milícias apoiadas pelo Irã no Iraque e o próprio Irã.
“O desafio central para Washington e seus parceiros do Golfo é que nem o Irã nem seus aliados regionais parecem dispostos a recuar do que agora definem como objetivos estratégicos fundamentais”, escreveu na rede social X Danny Citrinowicz, pesquisador sênior do Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel e ex-chefe da divisão do Irã na inteligência militar israelense.
“Teerã continua insistindo em manter sua influência sobre o Estreito de Ormuz, enquanto os Houthis deixaram claro que não encerrarão sua campanha a menos que o bloqueio imposto a eles — liderado pela Arábia Saudita — seja suspenso”.
‘Nada mais do que uma fantasia’
Em entrevista à televisão estatal iraniana, publicada poucas horas antes do ataque na Jordânia, o vice-ministro das Relações Exteriores, Kazem Gharibabadi, apresentou talvez uma das exposições mais claras da posição de Teerã até o momento.
O Irã havia cessado os disparos, sugeriu ele, mas não hesitaria em retomar as hostilidades caso sua reivindicação de soberania sobre o Estreito de Ormuz fosse contestada.
Teerã não poderia considerar-se vitoriosa se o estreito retornasse ao seu status anterior à guerra, afirmou o vice-ministro. A via navegável havia se tornado um elemento central para a segurança nacional do país e uma “ferramenta de defesa”.
Quando o entrevistador perguntou por que Teerã havia arriscado reiniciar a guerra ao atacar navios comerciais, apesar de um cessar-fogo em vigor, Gharibabadi disse que o Irã considerava uma “linha vermelha” os esforços de Omã e dos EUA para estabelecer uma rota de navegação concorrente através do estreito. Permitir a operação dessa rota, argumentou ele, reduziria a reivindicação do Irã ao “exercício efetivo de soberania” sobre a via navegável a “nada mais do que uma fantasia”.
“Pode-se analisar a questão de forma simples e perguntar por que o Irã atacaria três navios comerciais com mísseis apenas porque eles desligaram o GPS, correndo o risco de reiniciar uma guerra”, disse ele.
“Mas, se você observar os bastidores, verá que os arranjos aplicados ao Estreito de Ormuz terão um impacto de longo prazo na segurança da República Islâmica do Irã”, afirmou.
Do ponto de vista de Teerã, a pausa de Washington nos ataques ao Irã reflete “fraqueza estratégica, e não contenção”, escreveu Citrinowicz. Essa percepção corre o risco de alimentar um ciclo em que o Irã intensifica as hostilidades para impor custos maiores, enquanto nenhum dos lados recua por medo de perder credibilidade.
Os EUA e seus parceiros, portanto, enfrentam uma escolha, argumentou ele: atender a algumas exigências iranianas ou aceitar a perspectiva de um conflito prolongado marcado por ataques crescentes à navegação, à infraestrutura energética e às rotas comerciais.
(Com informações de Aida Karimi, Eyad Kourdi, Dana Karni, Mohammed Tawfeeq e Tal Shalev, da CNN).