O mercado financeiro acompanha com preocupação a indefinição sobre o Ministério da Fazenda e a postura da nova equipe econômica em relação à política fiscal. A demora na divulgação dos nomes e diretrizes do próximo governo tem deixado os agentes financeiros sem referências claras sobre os rumos da economia.
A analista e editora de Economia da CNN, Lucinda Pinto, avaliou o cenário ao CNN Prime Time.
Segundo ela, caso o mercado estivesse operando no dia em que as discussões sobre a política econômica do novo governo ganharam força, a instabilidade teria sido significativa.
“Eu não tenho dúvidas de que a gente teria visto muita instabilidade, especialmente nos juros futuros e também no dólar”, afirmou Lucinda Pinto.
Proposta de André Lara Resende divide economistas
Um dos pontos centrais do debate foi a proposta do economista André Lara Resende, que gerou intensa discussão entre acadêmicos e analistas.
Lucinda Pinto explicou que, embora Lara Resende seja um economista amplamente respeitado, a proposta não encontrou respaldo entre os especialistas.
“No fim das contas, o saldo da avaliação toda é que realmente isso que o André Lara Resende está propondo, embora seja um economista super respeitado, ninguém está muito de acordo, ninguém acha que faça sentido aqui no Brasil”, disse a analista.
Entre as críticas à proposta, Lucinda Pinto destacou que a tentativa de reduzir a taxa Selic de forma forçada poderia ter efeito contrário ao desejado.
“Na prática, o que você vai fazer é aumentar ainda mais a taxa de juros que o investidor vai exigir para emprestar dinheiro para o governo”, explicou.
Outro ponto contestado foi a ideia de usar reservas internacionais para conter impactos negativos sobre o câmbio.
Segundo a analista, os cerca de US$ 360 bilhões em reservas não seriam suficientes para acalmar os mercados em um cenário de fuga de capitais.
Apesar de alguns integrantes do governo terem manifestado simpatia pela ideia, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, descartou publicamente a proposta, tendo sua posição reforçada como porta-voz da equipe econômica.
Ajuste fiscal segue sem respostas claras
Para além do debate sobre a proposta de Lara Resende, Lucinda Pinto ressaltou que a preocupação do mercado vai além desse episódio.
O ponto central, segundo ela, é a ausência de medidas consistentes para conter o crescimento das despesas públicas.
“O que o mercado vê é pouca disposição do governo em fazer esse tal ajuste fiscal que tanto se clama”, afirmou.
Questionada sobre se o assunto estava sendo abordado pelo governo, a analista foi direta: “Nada é falado”.
Outro risco apontado por Lucinda Pinto é o de que o ajuste fiscal acabe sendo feito por meio da inflação, ou seja, permitindo que a alta de preços corrija os desequilíbrios das contas públicas.
“O perigo hoje que os analistas estão vendo é que o ajuste fiscal seja feito por meio da inflação”, alertou.
A analista também ponderou que o mercado, por vezes, exagera em suas reações, reconhecendo que os agentes financeiros atribuíram baixa probabilidade ao cenário atual.
Ainda assim, concluiu que os juros de longo prazo refletem diretamente as apostas sobre o que acontecerá com o quadro fiscal do país.