Análise: Fim da 6×1 compõe desafio de mão de obra no campo

A PEC que propõe o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal de trabalho acendeu um alerta no agronegócio brasileiro. Para Marcos Fava Neves, colunista do CNN Agro, a medida surge em um momento delicado para o setor, que já enfrenta um desafio considerado crítico: a escassez de mão de obra no campo.

Segundo o analista, é equivocado afirmar que há desemprego nas cadeias produtivas do agro. “Essa ideia de que existe um desemprego hoje nas cadeias produtivas do agro é falsa”, afirmou.

Como exemplo, ele citou os frigoríficos brasileiros, que atualmente acumulam cerca de 20 mil vagas em aberto, parte delas preenchidas por trabalhadores vindos da Venezuela e do Haiti.

Impacto nas empresas exportadoras

Para dimensionar os possíveis efeitos da proposta, Neves mencionou o caso de uma grande empresa brasileira do setor frigorífico, que conta com aproximadamente 51 mil funcionários. Segundo ele, a companhia precisaria contratar cerca de 10 mil trabalhadores adicionais para manter o mesmo nível de produção caso a jornada fosse reduzida.

“Só ela teria que contratar 10 mil pessoas a mais para manter a mesma produção”, explicou.

Na avaliação do analista, esse aumento dos custos operacionais, sem uma elevação proporcional dos preços de venda, pressionaria a inflação e reduziria a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional.

Neves também criticou a forma como a PEC vem sendo discutida. Para ele, a tramitação ocorre de maneira precipitada e está associada a interesses eleitorais. “O momento em que ela está sendo tratada é descabido, porque está sendo usada para ganho eleitoral”, afirmou. O colunista defendeu que o Senado amplie o debate antes de avançar com a proposta, ouvindo diferentes setores da economia.

Peculiaridades do agro exigem discussão específica

Outro ponto destacado por Neves é que uma regra uniforme dificilmente atenderia às necessidades de todos os segmentos do agronegócio. Segundo ele, cada cadeia produtiva possui características próprias e depende do calendário agrícola, o que exige maior flexibilidade na organização do trabalho.

“Tem momentos da agricultura que precisa trabalhar 24 horas”, ressaltou.

Para o analista, a discussão sobre jornada de trabalho deve ser conduzida de forma segmentada, levando em consideração as particularidades de cada atividade. Ele também apontou que a política de benefícios sociais tem contribuído para afastar parte da população das regiões de fronteira agrícola do mercado de trabalho, agravando a dificuldade de contratação.

Embora reconheça avanços recentes, como a aprovação de regras para o trabalho temporário, Neves avalia que a medida ainda é insuficiente para enfrentar a complexidade do problema.

Tecnologia e automação ganham espaço

Ao comentar o avanço da inteligência artificial e da automação no campo, Neves afirmou que as novas tecnologias têm desempenhado um papel importante ao transferir trabalhadores de funções mais pesadas para atividades mais qualificadas.

Como exemplo, ele citou a mecanização do corte de cana-de-açúcar, processo que reduziu a demanda por trabalho manual e impulsionou a migração de profissionais para outros setores da economia, como a construção civil.

Na avaliação do analista, tecnologia e trabalho humano não são elementos concorrentes, mas complementares. O desafio, segundo ele, é direcionar os trabalhadores para funções mais especializadas, produtivas e menos desgastantes.

Por isso, Neves considera que uma eventual aprovação apressada da PEC poderia dificultar esse processo de adaptação do mercado de trabalho, além de reduzir a atratividade do Brasil para investimentos e comprometer a geração de empregos de maior qualificação.

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