Dois terremotos de grande magnitude atingiram a Venezuela na quarta-feira (24), deixando quase 2 mil mortos, 10 mil desaparecidos e 50 mil edifícios destruídos. Diante da catástrofe, a comunidade internacional mobilizou recursos e equipes de resgate para auxiliar o país, que já enfrentava sérias fragilidades de infraestrutura e no sistema de saúde.
Segundo Vitélio Brustolin, professor de relações internacionais na Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador de Harvard, o contexto de abertura diplomática vivido pela Venezuela após a retirada de Nicolás Maduro do poder foi determinante para ampliar o alcance da ajuda internacional.
“Existe uma articulação diplomática que foi facilitada na Venezuela. Outros países se aproximaram em uma espécie de abertura diplomática para salvar vidas”, afirmou Brustolin em entrevista ao CNN 360º desta terça-feira (30).
Na avaliação dele, países que tinham divergências ideológicas com o governo anterior da Venezuela passaram a colaborar de forma mais expressiva com as operações de socorro.
Brustolin citou os Estados Unidos como exemplo: o país doou US$ 150 milhões e enviou navios de apoio logístico e helicópteros. El Salvador, por sua vez, enviou 300 paramédicos e 50 toneladas de suprimentos. “É um país que provavelmente, com Maduro no poder, não teria feito isso”, ressaltou.
Além desses países, o Canadá, o México e a Colômbia também prestaram auxílio às vítimas. O Brasil, por sua vez, enviou quatro voos do cargueiro KC-390, com 70 bombeiros especializados em buscas, cães de rastreamento e nove toneladas de equipamentos de salvamento, além de estrutura para um hospital de campanha.
Brustolin ressaltou, no entanto, que determinadas organizações internacionais enviariam ajuda independentemente da situação política do país.
“A ONU publicou relatórios mostrando o quanto o governo Maduro era opressivo, e veja: é a vice dele que está no poder, a Delcy Rodríguez. Ou seja, é o mesmo governo, só que há uma abertura forçada da Venezuela nesse momento”, explicou.
A Federação Internacional da Cruz Vermelha disponibilizou US$ 2,5 milhões, enquanto agências como o Acnur e a Organização Mundial da Saúde enviaram equipes e recursos ao país.
Desafios nas semanas seguintes
Brustolin alertou que os dias posteriores a terremotos de grande porte costumam ser igualmente devastadores. Além da destruição de edificações, a população enfrenta falta de água potável, interrupção da cadeia de alimentos, colapso dos hospitais e aumento de doenças infecciosas.
“Em grandes terremotos como esse, costuma haver mais vítimas indiretas nas semanas seguintes ao desastre”, destacou.
O professor lembrou ainda que o último terremoto de magnitude superior a 7,5 na escala Richter registrado na Venezuela ocorreu no começo do Século XX, tornando o evento atual historicamente inédito em termos de intensidade no último século.