Horrores da Segunda Guerra Mundial ainda marcam Japão décadas após conflito

O “escavador de ossos” desliza para dentro de uma caverna estreita em uma colina na selva de Okinawa. É um homem de porte franzino que, com agilidade, passa o corpo pela entrada da gruta, desviando-se cuidadosamente do teto de calcário pontiagudo enquanto transita sobre as pedras e a terra que se esfarelam no chão.

Ele se agacha enquanto a lanterna em sua testa ilumina a terra sob seus pés e remexe o solo com uma ferramenta de jardinagem, na tentativa de encontrar vestígios de pessoas que se esconderam em cavernas como aquela durante a Batalha de Okinawa, na Segunda Guerra Mundial.

Esta é a obra de uma vida para o buscador de ossos Takamatsu Gushiken. Ele passa grande parte de seu tempo livre em grutas na província mais ao sul do Japão, tentando trazer um desfecho para uma das batalhas mais ferozes e letais da Guerra do Pacífico.

Pergunto por que faz esse trabalho. Ele faz uma pausa e dá de ombros.

“Eles são humanos, e eu também sou”, diz ele baixinho, olhando para baixo, com a voz embargada pela emoção.

Gushiken me mostra o que encontrou no local até agora: partes de um crânio da região da orelha, ossos menores, talvez de um pé, diz ele, e outros ainda menores, possivelmente de uma criança ou de um bebê.

Ele também encontrou uma bala e levantou hipóteses sobre o que pode ter acontecido naquele local oito décadas atrás: uma mãe e seu filho se esconderam enquanto a batalha se desenrolava do lado de fora.

Enquanto tropas dos Estados Unidos tentavam limpar cavernas onde defensores japoneses estavam escondidos, os dois civis, assim como tantos outros em Okinawa, foram pegos no fogo cruzado.

Eles estariam entre as cerca de 240 mil pessoas mortas ou desaparecidas na Batalha de Okinawa, desde o desembarque da força de invasão dos EUA, em 1º de abril de 1945, até a declaração de vitória pelos americanos, em 22 de junho.

Esse número inclui até 100 mil civis, 110 mil soldados japoneses e recrutas e mais de 12 mil militares americanos e aliados, segundo o Museu Nacional da Segunda Guerra Mundial, na Louisiana.

Essas vidas foram perdidas em um cenário infernal de avassalador poder de fogo norte-americano.

As forças do país utilizaram 1,1 milhão de projéteis de obuseiro, uma arma de artilharia com um cano mais curto, de 105 milímetros, na ilha, dispararam mais de meio milhão de granadas de morteiro, efetuaram mais de 16 milhões de disparos de metralhadora e nove milhões de tiros de fuzil, segundo o museu.

Mais perto da história

Oitenta anos depois, as cicatrizes permanecem, permitindo aos visitantes aproximarem-se e tocarem a história.

Na ilha de Ie Shima, a carcaça de uma casa de penhores ainda permanece de pé. É a única estrutura que sobreviveu aos combates naquela ilha de 23 quilômetros quadrados, que abrigava uma importante pista de pouso durante a guerra.

No antigo quartel-general subterrâneo da Marinha Japonesa em Tomigusuku, paredes marcadas por estilhaços são testemunhas de um suicídio coletivo.

Um memorial na parte externa diz: “O vice-almirante Minoru Ota e seus quatro mil homens… cometeram suicídio nesta base subterrânea em 18 de junho de 1945.”

Do lado de fora de uma caverna sem identificação, próxima ao sítio sagrado Sefa Utaki em Nanjo, uma granada não detonada permanece perto da estrada, bem ao lado de uma via movimentada.

No interior, as marcas de picareta deixadas durante a escavação da gruta ainda estão lisas, à medida que o espaço se abre para uma posição de metralhadora escavada no solo.

Suba uma trilha a partir do Parque da Paz de Okinawa, na costa sul da ilha, e pare ao lado da entrada da caverna onde o comandante da guarnição japonesa em Okinawa, o general Mitsuru Ushijima, tirou a própria vida em 22 de junho de 1945, quando as tropas americanas se aproximavam por baixo.

E na rocha perto de uma gruta na selva, Gushiken, o caçador de ossos, aponta onde balas de fuzil e metralhadora deixaram suas marcas.

Comparando 1945 e 2025

Marque um ponto no aplicativo de mapas do seu celular em qualquer um desses locais, dirija até o Arquivo da Prefeitura de Okinawa e você poderá ver exatamente qual era a aparência daquele terreno durante a batalha ou logo após o término.

Arquivistas compararam fotos de vigilância e reconhecimento das forças armadas dos EUA com a paisagem atual. Talvez nada ilustre melhor esse cenário infernal.

Kazuhiko Nakamoto é a força motora por trás do acervo do arquivo, empenhando-se em documentar a história dos anos de guerra e do período posterior.

Ele conta a história de como sua mãe, então com seis anos em 1945, sobreviveu à batalha separada dos pais e sob os cuidados da avó, que se deslocava pela parte sul da ilha em busca de locais seguros enquanto o combate se intensificava.

“Foi como um milagre ela ter sobrevivido”, diz ele, acrescentando que sua família foi uma das que tiveram sorte em Okinawa.

Nakamoto e seus colegas arquivistas Akira Yoshimine e Eriko Nishiyama relatam como os habitantes de Okinawa foram vítimas de uma guerra que não haviam provocado.

Quando o governo de Tóquio enviou tropas para guarnecer a ilha, muitos acreditaram que os soldados japoneses estavam ali para protegê-los, e não para recrutá-los para o combate que estava por vir.

Mas o militarismo era promovido até mesmo nas escolas de ensino fundamental, dizem eles, apontando para um livro didático que ensinava os alunos a contar usando imagens de aviões de guerra e tanques.

Alunas imersas na guerra

Nenhum lugar em Okinawa torna essa tragédia tão palpável quanto o Museu da Paz de Himeyuri, que conta a história do Corpo Estudantil Himeyuri, adolescentes recrutadas à força para servir ao exército japonês durante a batalha.

As jovens da Escola Feminina Okinawa Shihan e da Escola de Ensino Médio Feminino Okinawa Daiichi ajudaram a cuidar e a prestar assistência a soldados japoneses feridos em cavernas como a situada no local do museu que as homenageia, uma cavidade na rocha conhecida durante o conflito como a Terceira Caverna Cirúrgica de Ihara, parte do Hospital do Exército de Okinawa.

“Logo após o início da batalha, as estudantes de Himeyuri foram mobilizadas”, diz o museu. “A guerra real mostrou-se diferente de tudo o que haviam imaginado.”

Estudantes sobreviventes relatam os horrores que vivenciaram em vídeos exibidos na exposição.

Elas falam sobre ajudar a amputar os membros dos feridos, realizando as operações sem anestesia. Relatam a remoção de larvas das feridas, as tentativas de confortar aqueles que deliravam com a “febre cerebral” e a visão de colegas morrendo sob o fogo americano, nas entradas de grutas ou enquanto cumpriam missões de reabastecimento.

Elas falam de um cheiro que impregnava as cavernas cirúrgicas, uma mistura de excrementos humanos, sangue, suor e carne em decomposição, e que nunca deixava os corredores sem ventilação.

Em outro local, o depósito do Hospital do Exército nº 20 no Museu da Guerra de Haebaru, os funcionários recriam esse fedor em um frasco e oferecem aos visitantes no final da visita. Mesmo ao ar livre, é horrível.

Os depoimentos em vídeo são crus, vívidos e difíceis de assistir para um visitante.

Após os vídeos, os retratos das 227 integrantes do grupo Himeyuri, mortas ou desaparecidas em Okinawa, estão expostos nas paredes de uma sala ampla.

Uma legenda abaixo de cada foto descreve o destino de cada uma; várias delas registram a última vez que as jovens foram vistas com vida e informam que o que aconteceu com elas permanece desconhecido.

Esses são os que mais me tocam e trazem à mente os ossos que Gushiken encontrara na caverna onde eu estivera apenas algumas horas antes. Será que pertenciam a algum desses rostos jovens?

Ele diz que entrega às autoridades tudo o que encontra, mas cabe a elas determinar se é possível realizar testes de DNA. Muitas vezes, simplesmente não há material ósseo suficiente para obter compatibilidade, explica ele.

Se objetos como canetas ou cadernos com nomes forem encontrados junto aos ossos, isso pode fornecer uma pista, diz ele. No entanto, itens sem essas informações de identificação são deixados onde foram encontrados.

Ainda assim, ele gostaria de ver o governo fazendo mais.

“Espero que as autoridades adotem uma abordagem mais proativa para identificar os ossos, aprimorem sua tecnologia e devolvam o maior número possível de ossos às suas famílias”, diz ele.

Os americanos

Se existe um equivalente americano de Gushiken em Okinawa, essa pessoa pode muito bem ser Steph Pawelski. Natural da Pensilvânia, ela é esposa de militar dos Estados Unidos e professora de uma escola do Departamento de Defesa americano, além de administrar a página do Facebook “Okinawa Battle Sites”.

A parte traseira de sua perua é, ao mesmo tempo, uma biblioteca sobre a história da guerra e um depósito de equipamentos para trilhas e espeleologia, ciência que estuda cavernas e outras cavidades naturais subterrâneas. Seu conhecimento sobre a ilha parece enciclopédico.

Em um dia no início de março, sugeri que nos encontrássemos para almoçar em um hotel na área urbana de Naha. Pawelski diz que devemos chegar mais cedo e dar uma olhada em uma gruta situada em um parque, em frente ao estacionamento do hotel.

Durante a exploração de um campo de batalha na encosta de uma colina, realizada com uma equipe liderada por Gushiken, Pawelski adianta-se em relação ao grupo para apontar possíveis entradas de cavernas que o japonês estava procurando.

Pawelski diz que seu interesse pelos locais de batalha é motivado por seus avôs, ambos tendo servido em Okinawa.

Usando fotos que seu avô materno tirou durante o tempo em que esteve no teatro de operações da Ásia, ela tenta se posicionar exatamente nos locais onde ele esteve décadas atrás.

“Pude ver através dos olhos do meu avô, seguir seus passos e sentir sua presença de uma forma que jamais imaginei. Foi como se o passado e o presente tivessem convergido, criando um retrato da história que palavras jamais conseguiriam captar”, diz a professora.

Gushiken diz que espera que seu trabalho transmita uma mensagem: “Chega de guerras. Não deveria haver mais guerras.”

FONTE

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *