O comandante da Marinha do Brasil, Marcos Sampaio Olsen, classificou os eventos de 8 de janeiro de 2023 como um “acontecimento lamentável”. Em entrevista à CNN, Olsen ressaltou ainda que o episódio e tudo o que veio a ser revelado no decorrer do processo judicial — já sentenciado — evidenciaram, por outro lado, uma maturidade institucional admirável por parte das instituições brasileiras.
Segundo Olsen, as instituições “perseveraram nas suas atribuições constitucionais”. O comandante destacou a necessidade de orientar condutas para “blindar a instituição desse tipo de comportamento”, referindo-se ao envolvimento político no âmbito das Forças Armadas.
Política ainda não está completamente fora da caserna, reconhece Olsen
Questionado sobre se a política estaria completamente afastada do ambiente militar, Olsen foi categórico ao afirmar que não é possível dizer isso, embora reconheça avanços em relação à situação que culminou no 8 de janeiro.
“Não posso dizer isso, mas há um avanço, se considerarmos em relação à situação que culminou no 8 de janeiro de 2023, pela postura das forças”, declarou, acrescentando que muito se deve à atuação do ministro da Defesa, José Múcio, para “contemporizar os ânimos” e realinhar as Forças Armadas. Para Olsen, “discussões político-partidárias são incongruentes com o papel das Forças Armadas”.
Na análise do diretor de Jornalismo da CNN em Brasília, Daniel Rittner, o desconforto na cúpula das Forças Armadas acerca do episódio ainda é nítido. Rittner lembrou que foi justamente na Marinha que ocorreu o caso mais grave entre os comandantes ao fim do governo anterior: o ex-comandante Almir Garnier foi julgado e condenado pelo STF (Supremo Tribunal Federal).
Segundo Rittner, o que veio à tona no decorrer do processo foi a revelação de que Garnier teria colocado à disposição do ex-presidente Jair Bolsonaro uma mobilização de tropas e meios da Marinha para, possivelmente, um golpe de Estado.
Olsen defende PEC que impede retorno de militares à caserna após candidatura
Olsen também fez menção a uma PEC que determina que militares que saírem da ativa para se candidatar a cargos políticos não possam retornar às fileiras.
A proposta, apresentada no início da legislatura atual, não avançou no Congresso Nacional. O comandante fez uma defesa veemente da medida, argumentando que carreira militar e envolvimento político eleitoral são incompatíveis.
Falta de previsibilidade orçamentária prejudica programas de defesa
Outro tema abordado por Olsen foi a questão orçamentária. O comandante afirmou que a defesa “se ressente de uma adequação orçamentária e, particularmente, de previsibilidade orçamentária”, necessária para contratos de longo prazo.
Segundo ele, a baixa percepção de ameaça por parte da sociedade acaba refletindo nas instâncias decisórias do país, gerando uma “mentalidade bastante acanhada de defesa”.
Rittner destacou que os R$ 30 bilhões previstos como exceção ao arcabouço fiscal — distribuídos em R$ 5 bilhões anuais até 2031 para as três Forças Armadas — foram considerados por Olsen como bem-vindos, mas insuficientes.
No caso da Marinha, o principal projeto estratégico é o desenvolvimento de um submarino com propulsão nuclear. O projeto, iniciado em parceria com a França no final dos anos 2000, teve sua previsão de entrega adiada para 2038, quando originalmente deveria ser concluído em meados da década de 2020.
Rittner também mencionou outros projetos militares afetados pela falta de previsibilidade orçamentária, como a compra de caças e o projeto de monitoramento de fronteiras do Exército, cujas entregas também foram postergadas.