Neste 22 de julho de 2026, o esporte a motor celebra exatamente 132 anos de seu nascimento. Em um domingo de 1894, estradas de terra no norte da França foram palco do Concours des Voitures sans Chevaux (Competição de Carros sem Cavalos), organizado pelo jornal parisiense Le Petit Journal.
Com percurso de 127 km, ligando a capital Paris à cidade de Rouen, o evento não apenas deu início às competições automotivas, mas serviu de divisor de águas na transição do transporte guiado por tração animal para os motores autopropulsados.
Idealizada por Pierre Giffard, editor-chefe do Le Petit Journal, a prova nasceu com forte apelo publicitário para alavancar as vendas do diário. Na época, os carros eram vistos como curiosidades caras e perigosas. Para mudar essa percepção e incentivar a indústria local, Giffard propôs uma competição focada em segurança, economia, facilidade de condução e confiabilidade.

Diferente do automobilismo atual, que visa sempre provar quem é o piloto e a equipe mais rápidos, o maior objetivo da época era o de provar que os carros eram máquinas que conseguiam fazer exatamente o que as carroças e carruagens faziam, porém sem a tração animal.
O regulamento exigia que os veículos fossem fáceis de operar por um único condutor, sem custos excessivos de viagem, e o interesse superou as expectativas: 102 participantes pagaram a taxa de inscrição de 10 francos.
A lista de inscritos reuniu desde invenções caseiras movidas a ar comprimido ou vapor até os projetos mais refinados das jovens fabricantes francesas, como Peugeot, Panhard & Levassor e De Dion, Bouton & Cie.
Das eliminatórias à largada em Porte Maillot
Antes de encarar a estrada até Rouen, os inscritos passaram por uma rigorosa fase de seleção. 69 automóveis alinharam-se para um teste de resistência de 50 km ao redor de Paris, com prazo limite de 3 horas. Apenas 25 veículos completaram a triagem e conquistaram a vaga para a prova principal.
Na manhã de 22 de julho de 1894, uma multidão ocupou as imediações do Porte Maillot e do Bois de Boulogne para prestigiar o primeiro evento automobilístico da história e ver os finalistas remanescentes partirem rumo ao norte, liberados um a um a cada 30 segundos.
“O objetivo não era uma corrida com velocidade desmedida, mas demonstrar ao público que o automóvel era um substituto viável e seguro para as carruagens a cavalo.” — Le Petit Journal, 1894
O duelo entre o vapor e a gasolina
A prova marcou o confronto direto entre duas tecnologias: os tradicionais motores a vapor e os pioneiros motores a combustão interna (a gasolina).
Após uma pausa para o almoço em Mantes, os concorrentes enfrentaram estradas esburacadas e nuvens espessas de poeira. O Conde Jules-Albert de Dion, a bordo de um pesado trator a vapor de sua própria fabricação, foi o primeiro a cruzar a linha de chegada em Rouen. Ele completou o trajeto em 6 horas e 48 minutos, alcançando a média impressionante para a época de 19 km/h.
Em segundo lugar, com 3 horas e 30 segundos de diferença, cruzava o francês Albert Lemaître, pilotando um Peugeot com motor a gasolina de apenas 3 cavalos de potência.
Apesar de ser o primeiro a cruzar a linha de chegada, o Conde de Dion teve a vitória anulada no julgamento oficial. Seu veículo a vapor exigia a presença de um “foguista” (alimentador de combustível) para manter a caldeira acesa durante o trajeto. Como o regulamento exigia carros práticos operados por apenas uma pessoa, o júri considerou o acessório e a necessidade do assistente fora das regras do certame.

Com isso, o prêmio principal de 5.000 francos do Le Petit Journal foi compartilhado entre as fabricantes Peugeot e Panhard & Levassor, cujos carros a gasolina demonstraram maior facilidade de uso, segurança e confiabilidade. Albert Lemaître foi reconhecido como o motorista do carro de passeio mais eficiente.
A decisão selou o destino da indústria automotiva no século XX ao mostrar que os motores a combustão interna são mais práticos e eficientes que os motores a vapor e deu início à paixão mundial pelas corridas, consolidando um legado que perdura há mais de um século nas pistas do mundo inteiro.