Mãe passa 30 horas com bebê sob escombros na Venezuela: “Sabia que viveria”

Por mais de 30 horas, Dayana Patiño e seu bebê, de apenas 18 dias de vida, permaneceram sob os escombros de um prédio que desabou após os terremotos que atingiram a Venezuela em 24 de junho. Embora não soubesse como, ela acreditava que os dois sobreviveriam.

Presa sob a estrutura do edifício que desmoronou no estado de La Guaira, Dayana viu uma Bíblia debaixo dela. De alguma forma, aquilo lhe trouxe esperança.

“Ao ver a Bíblia, senti uma paz e uma fé de que, mesmo sem saber como, eu iria sobreviver”, contou nesta sexta-feira, em entrevista à CNN.

Pelo menos 2.645 pessoas morreram em consequência dos terremotos que atingiram a Venezuela há pouco mais de uma semana, segundo balanço divulgado pelo governo nesta sexta-feira. Além disso, mais de 12.600 pessoas ficaram feridas.

De acordo com os números oficiais, 6.462 pessoas foram resgatadas. Entre elas estão Dayana e seu filho recém-nascido, Juan David Trujillo.

A pista que levou ao resgate de Dayana e do bebê

Durante mais de 30 horas, presa a mais de 6 metros de profundidade, Dayana conta que conversava com Deus. Apesar da profundidade do local onde estava soterrada, ela afirma que não sentiu falta de ar e que nunca ficou completamente no escuro. Sem saber de onde vinha, uma luz fraca permitia que ela continuasse vendo o bebê e mantivesse a calma.

“Eu permaneci o tempo todo alerta por causa do meu bebê”, afirma Dayana.

Quando o primeiro terremoto atingiu o prédio, Dayana havia acabado de chegar em casa depois de passear com sua cadela. Ela colocou o bebê na cadeirinha de balanço sobre a mesa para começar a limpar a casa e, naquele momento, sentiu o início do tremor.

“Primeiro achei que fosse passar logo. Depois corri, peguei meu bebê e me sentei para esperar que acabasse.”

Pouco depois, a varanda do apartamento desabou. Ela viu sua cadela desaparecer e, em seguida, sentiu que caía no vazio.

“Caí em uma espécie de buraco, onde fiquei presa. Era um móvel da minha casa, o rack da televisão”, relembra. O bebê permaneceu junto dela, sobre seu peito.

“Começamos a procurar entre os escombros, mas já era noite. Não havia luz, ninguém para iluminar. Éramos apenas nós com as lanternas dos celulares”, contou o marido, Gerson, durante a entrevista. No momento do terremoto, ele havia acabado de entrar no prédio e conseguiu sair antes do desabamento.

Na noite de quarta-feira, em meio à escuridão e ao desespero, encontrar Dayana e o bebê parecia impossível.

Com a luz da manhã seguinte, ao analisar como o prédio havia desabado e onde poderiam estar os destroços do apartamento, Gerson retomou as buscas ao lado de dezenas de amigos, conhecidos e familiares. Ele começou a procurar objetos que reconhecesse da casa, algo que pudesse servir de referência para localizar sua família, que, sem que ele soubesse, ainda estava viva.

Foi então que Gerson encontrou o piso do banheiro do apartamento. Poucos meses antes, a família havia trocado os azulejos durante uma reforma. Ao vê-los, ele os reconheceu imediatamente e percebeu que Dayana e Juan David poderiam estar perto dali.

“Na Semana Santa, reformei o banheiro do apartamento. Isso foi fundamental para identificarmos o piso novo. Foi ali que começamos a busca.”

Horas depois, Dayana foi localizada e os trabalhos para remover os escombros começaram. Equipes da Defesa Civil conseguiram resgatá-la após 32 horas presa sob os destroços. As imagens de Juan David chorando ao reencontrar o pai e de Dayana sendo levada em segurança em uma maca renovaram a esperança de milhares de pessoas que, naquele momento, também procuravam por familiares desaparecidos.

“O bebê está perfeitamente bem, 100% saudável. Saiu ileso”, conta Dayana.

Ela sofreu lesões nos ligamentos e nos meniscos das pernas, que precisaram ser imobilizadas, e deverá passar por uma cirurgia nas próximas semanas.

As marcas do que aconteceu ainda acompanham a família, e o medo de novos tremores permanece. Desde 24 de junho, mais de 800 abalos sísmicos foram registrados, segundo dados divulgados pelo governo da Venezuela.

“Ainda não conseguimos dormir. Ainda sentimos que pode acontecer outro terremoto”, afirma o casal.

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