Fim da guerra? Por que ainda há ataques entre EUA e Irã?

Apesar da assinatura do memorando de entendimento entre EUA e Irã, que declarou o fim da guerra e estabeleceu um prazo de 60 dias para negociar um acordo definitivo, novos ataques registrados nos últimos dias mostram que o conflito ainda está longe de ser totalmente encerrado.

As trocas de hostilidades têm se concentrado principalmente na região do Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo para o transporte de petróleo e gás natural, cuja administração se tornou um dos principais pontos de tensão entre Washington e Teerã.

Como começaram os novos ataques?

Na quinta-feira (25), o Irã atacou uma embarcação comercial próxima ao Estreito de Ormuz.

Segundo autoridades americanas, um drone iraniano atingiu o porta-contêineres Ever Lovely, de bandeira de Singapura, no primeiro ataque contra uma embarcação desde a assinatura do acordo.

O presidente dos EUA, Donald Trump, classificou a ação como uma “violação insensata” do acordo firmado entre os dois países.

Em resposta, as forças americanas realizaram ataques contra instalações militares iranianas nas proximidades do estreito.

Segundo o CENTCOM (Comando Central dos EUA), aeronaves atingiram depósitos de mísseis e drones, além de instalações de radar costeiro utilizadas pelas forças iranianas.

Após os bombardeios americanos, a Guarda Revolucionária do Irã afirmou ter lançado ataques contra posições militares dos Estados Unidos no Oriente Médio.

O Ministério das Relações Exteriores iraniano acusou Washington de violar o memorando de entendimento. As forças armadas americanas, porém, não confirmaram os ataques de Teerã.

Uma autoridade dos EUA disse à CNN que drones iranianos foram detectados, mas não atingiram seus alvos.

Enquanto isso, o Bahrein, que abriga uma importante base militar americana, informou ter sido alvo de drones iranianos durante a madrugada deste sábado (27), classificando a ação como uma violação de sua soberania.

Memorando de entendimentos

O memorando determina que o Irã empregará seus “melhores esforços” para garantir a passagem segura de embarcações comerciais pelo Estreito de Ormuz, rota responsável por cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo e gás natural liquefeito.

Em troca, os Estados Unidos concordaram em retirar gradualmente o bloqueio naval imposto durante o conflito.

No entanto, o texto também prevê que Irã e Omã negociem conjuntamente a futura administração da hidrovia.

Na prática, Teerã interpreta essa cláusula como uma autorização para exercer maior controle sobre o estreito.

Antes do ataque navio comercial, a Guarda Revolucionária iraniana havia advertido que embarcações deveriam utilizar apenas rotas autorizadas por Teerã.

O governo iraniano criou uma nova autoridade para administrar a navegação na região e passou a exigir que navios solicitem previamente uma autorização para obter uma “Garantia de Passagem Segura”.

Ao mesmo tempo, surgiram três rotas diferentes para atravessar o estreito, sendo uma controlada pelo Irã, outra passando pelas águas do território de Omã e a rota tradicional, utilizada antes da guerra.

Segundo especialistas ouvidos pela CNN, isso gerou grande insegurança para empresas de navegação.

Se utilizarem a rota controlada pelo Irã, companhias marítimas temem sofrer futuras sanções dos Estados Unidos.

Por outro lado, caso ignorem as exigências iranianas, correm o risco de novos ataques.

Após o ataque ao Ever Lovely, a IMO (Organização Marítima Internacional) suspendeu temporariamente uma operação humanitária destinada à retirada de centenas de navios comerciais da região.

Empresas de seguro também mantêm prêmios elevados para embarcações que transitam pelo estreito, refletindo a percepção de que o risco permanece alto.

Acordo em fase de implementação

Especialistas afirmam que as trocas de ataques demonstram que o memorando representa apenas o início de um processo diplomático.

O documento estabelece um período de 60 dias para que Estados Unidos e Irã negociem um acordo definitivo sobre temas como o programa nuclear iraniano, sanções econômicas e a segurança da navegação no Golfo Pérsico.

Enquanto essas negociações não forem concluídas, analistas avaliam que novos episódios de tensão podem continuar ocorrendo, especialmente no Estreito de Ormuz, onde ainda existe uma diferença significativa entre o que foi acordado pelos governos e o que ocorre na prática.

(Com informações de Mostafa Salem, Eleni Giokos, Sophie Tanno, Kevin Liptak e Zachary Cohen, da CNN)

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