Os EUA anunciaram o envio de US$ 150 milhões em ajuda humanitária à Venezuela, após os terremotos devastadores que atingiram o país na quarta-feira (24).
O Departamento de Estado americano confirmou a destinação dos recursos, além da mobilização de dois navios e aviões para apoio às operações de socorro.
Durante o videocast “Fora da Ordem”, desta sexta-feira (26), o analista de internacional da CNN Brasil, Lourival Sant’Anna, avaliou que a iniciativa carrega um componente político direto.
Segundo ele, Donald Trump declarou que os venezuelanos são “nossos novos e grandes amigos” e busca demonstrar que países da América Latina alinhados aos Estados Unidos colhem benefícios concretos dessa aproximação.
Ajuda limitada por pressões orçamentárias
Lourival ponderou, no entanto, que o alcance da ajuda americana é restrito.
“Os Estados Unidos sofrem com grandes pressões orçamentárias”, afirmou o analista, acrescentando que o país “acabou de gastar quase 100 bilhões de dólares no Irã”.
Nesse contexto, segundo ele, não há um ambiente político interno favorável a grandes gestos de generosidade com outras nações, ainda que exista interesse genuíno por parte de figuras do Departamento de Estado com vínculos históricos com a região.
O analista destacou ainda a ambivalência do contribuinte americano diante da situação. Para ele, apesar da solidariedade humana diante da tragédia, há também um sentimento de antipatia, uma vez que a Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo e, na visão de parte da opinião pública americana, não soube administrá-las adequadamente.
Maduro rejeitaria a ajuda, avalia analista
Lourival destacou um aspecto que considera positivo em meio à crise: o fato de Nicolás Maduro não estar mais no poder.
“A única coisa boa em tudo isso é o Nicolás Maduro não estar no governo”, disse o analista. “Porque ele rejeitaria a ajuda americana, como ele rejeitou várias vezes”, completou, lembrando que o mesmo comportamento foi observado durante a pandemia.
Com Maduro fora do cenário, a Venezuela, agora sob Delcy Rodríguez, mantém uma parceria com Trump, cujo país é, segundo Lourival, o que tem maior capacidade de oferecer socorro.
Oposição vê oportunidade política na tragédia
Questionado sobre o papel da oposição venezuelana diante dos terremotos, Lourival avaliou que a catástrofe representa uma oportunidade política, ainda que indireta.
Ele ressaltou que o distrito de Chacal, em Caracas, um dos mais afetados pelo terremoto, foi administrado por Leopoldo López, um dos principais líderes oposicionistas, que enfrentou repressão, ficou preso por um longo período e posteriormente se exilou, segundo o analista, em Madri. López ainda mantém, de acordo com Lourival, uma capacidade considerável de mobilização no país.
O analista mencionou ainda outros nomes da oposição, como Maria Corina Machado e Henrique Capriles.
Para Lourival, passado o primeiro momento de choque emocional, o debate sobre gestão pública, políticas de construção e sistemas de resposta a desastres tende a ganhar força.
“Todas essas discussões vão vir sim e poderão catalisar um processo de democratização”, concluiu, classificando esse cenário como “uma hipótese plausível”.