A predisposição genética desempenha um papel relevante no desenvolvimento de doenças autoimunes, mas não é o único fator determinante. Segundo especialistas, fatores ambientais funcionam como gatilhos essenciais para que a doença se manifeste, mesmo em indivíduos com histórico familiar.
O tema foi abordado no programa CNN Sinais Vitais deste sábado (26). O Dr. Roberto Kalil recebeu a reumatologista Ana Luisa Garcia Calich e da dermatologista Cristina Abdalla, ambas do Hospital Sírio Libanês.
Calich explicou que a predisposição genética para doenças autoimunes não se resume a um único gene, mas sim a uma “conjuntura de genes”. “O curioso é que às vezes são genes que não são específicos de uma doença. Isso explica porque famílias tem tendência a ter doença autoimune, mas um tem hashimoto e outro tem lúpus”, exemplificou a especialista.
Para ilustrar que a genética, por si só, não é suficiente para determinar o surgimento da doença, a reumatologista citou o exemplo de gêmeos univitelínicos, que compartilham 100% do DNA.
“Um gêmeo que tem lúpus, o outro tem 25% a 50% de chance de ter lúpus também. É muito maior que a probabilidade da população, mas não é 100%. Se fosse só o genético seria 100%”, explicou.
Fatores ambientais como gatilhos
Entre os fatores ambientais capazes de desencadear doenças autoimunes, Ana Luisa mencionou o tabagismo, que já tem relação bem estabelecida com a artrite reumatoide. A obesidade também foi citada como um fator pró-inflamatório. “Um paciente com psoríase, que é obeso, ele tem um risco maior de desenvolver artrite psoriásica”, exemplificou.
Infecções como o vírus Epstein-Barr, causador da mononucleose, foram associadas à esclerose múltipla e ao lúpus. O estresse e a microbiota intestinal também foram apontados como fatores relevantes.
“As bactérias que a gente tem no intestino também fazem parte do processo de desenvolvimento da autoimunidade“, destacou Calich.
Além disso, o consumo de alimentos ultraprocessados foi relacionado ao aumento do risco, pela alteração que provocam na microbiota intestinal. “Comer bem também é importante para evitar”, ressaltou.
Doenças autoimunes que afetam a pele
A dermatologista Cristina Abdalla abordou as doenças autoimunes com manifestações visíveis na pele, destacando o lúpus, que provoca manchas características em formato de asa de borboleta no rosto, e a psoríase, com lesões que podem aparecer no cotovelo, nas mãos e no couro cabeludo.
Além da aparência, esses pacientes frequentemente sofrem com sintomas como prurido, ardor e desconforto, além de restrições como a impossibilidade de exposição à luz solar, no caso de doenças fotossensíveis como o lúpus.
Cristina destacou ainda o impacto dessas condições na qualidade de vida dos pacientes. “Esse indivíduo vai trabalhar, ele tem lesão na mão, ele vai ter que cumprimentar uma pessoa, então isso incomoda”, relatou.
A especialista mencionou a existência de questionários específicos para medir a qualidade de vida desses pacientes, e afirmou que, em alguns casos, mesmo lesões de menor extensão podem causar um impacto tão significativo quanto doenças graves. “Hoje nós temos muitas opções, felizmente, de tratamento para essas doenças“, concluiu.