Copa do Mundo retoma debate sobre saúde mental de atletas profissionais

Às vésperas da Copa do Mundo de 2026, o debate sobre a saúde mental de atletas de alto rendimento volta a ser discutido por profissionais da saúde e do esporte. A cobrança por resultados, a exposição pública em grandes eventos esportivos, como o mundial, e as novas dinâmicas nas redes sociais são fatores que podem agravar quadros de sofrimento psíquico em atletas. Especialistas falaram à CNN Brasil sobre a importância do tema.

Em um dos maiores eventos de futebol do planeta, os atletas convivem diariamente com a pressão das torcidas e a responsabilidade de representar seus respectivos países. A situação tensa se agrava com a exposição dos jogadores nas redes sociais, sobretudo as duras críticas e comentários que, muitas vezes, se transformam em ataques para além do futebol.

Casos recentes, como o do jogador Philippe Coutinho, demonstram a importância do cuidado com a saúde mental no esporte de alto rendimento. No início do ano, o atleta deixou o Vasco da Gama e publicou uma carta afirmando enfrentar um “cansaço mental extremo”. O caso acendeu um alerta sobre a importância do apoio psicológico oferecido pelas equipes aos atletas.

Procura por atendimento psicológico é mais alta às vésperas de grandes competições

A procura por ajuda pelos atletas costuma ser maior em datas próximas a jogos decisivos e grandes campeonatos. É o que relata a neuropsicóloga e responsável técnica da unidade da Valor do Conhecimento, Márcia Yunes: “Grandes eventos costumam aumentar a procura porque tornam tudo mais intenso: expectativa, cobrança, exposição e medo de falhar”, explica ela.

Ela chama atenção para a necessidade do cuidado psicológico não apenas na véspera de uma competição ou quando o atleta já está em crise. “Ele precisa fazer parte da rotina, assim como o treino físico e técnico”, defende.

As queixas mais comuns costumam envolver ansiedade de desempenho, excesso de autocobrança, medo de errar, dificuldade para lidar com críticas, alterações de sono, irritabilidade, fadiga mental e dificuldade de recuperação emocional após derrotas, lesões ou momentos de baixa performance. O psicólogo e especialista em Neuropsicologia Clínica, Lucas de Andrade, explica que sintomas depressivos e crises de ansiedade também são relatos comuns entre jogadores.

“Os transtornos relacionados ao estresse, uso problemático de substâncias, transtornos alimentares e quadros de burnout esportivo”, conta. “Mas é importante diferenciar sofrimento emocional de diagnóstico: nem toda oscilação emocional em competição significa transtorno.”

Redes sociais amplificam críticas a erros e expõem atletas às críticas fora de campo

Lucas também pontua como as redes sociais podem piorar os sintomas de um atleta que já se encontra em sofrimento psíquico. “As redes sociais aumentam muito a sensação de vigilância. O atleta não é avaliado apenas pelo desempenho em campo, mas também por opiniões, cortes de vídeo, comentários, ataques, comparações e interpretações constantes sobre sua vida pessoal e profissional”, explica o psicólogo. Ele alerta que as redes podem, inclusive, dificultar a recuperação emocional após uma falha em campo, porque a crítica permanece circulando muito tempo depois do fim da partida.

“As redes sociais mudaram a forma como o atleta vivencia a pressão. Antes, a crítica costuma aparecer depois do jogo; hoje ela acompanha o atleta o tempo todo”, complementa Márcia Yunes.

Saúde mental deve integrar protocolo de preparação de atletas antes de competições

Discutir o tema publicamente ajuda a reduzir o estigma e inclui o cuidado psicológico nas estratégias de preparação para a competição. Uma mente saudável está ligada a melhores desempenhos em competições esportivas, pois a regulação emocional permite melhor tomada de decisões, recuperação e consistência em ambientes de alta pressão.

“A Copa do Mundo torna tudo mais visível: a habilidade, a vitória, o erro e a pressão. Falar sobre saúde mental nesse contexto ajuda a lembrar que atletas de alto rendimento continuam sendo pessoas expostas a exigências emocionais muito intensas”, diz Márcia Yunes.

Para a neuropsicóloga, quando esse debate é feito com seriedade, ele deixa de ser visto como fraqueza e passa a ser compreendido como parte do cuidado necessário para competir em alto nível. “O objetivo não é blindar o atleta da realidade, mas ajudá-lo a não se desorganizar diante dela”, conclui.

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