Mensagens, reuniões e relação com Vorcaro: o que pesa contra Moraes

O STF (Supremo Tribunal Federal) analisa nesta terça-feira (15) um relatório da Polícia Federal que reúne mensagens e outros registros usados pela corporação para apontar uma relação próxima entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

O documento está no centro da sessão que poderá definir se há elementos para abrir uma investigação contra Moraes ou se o caso deve ser arquivado. A PGR (Procuradoria-Geral da República) também pede a anulação do relatório, sob o argumento de que sua produção teve vícios de origem.

A PF reuniu 52 mensagens entre dezembro de 2023 e novembro de 2025. O relatório, porém, reconstitui principalmente conteúdos enviados por Vorcaro a um número salvo em seu celular como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. As respostas do ministro não aparecem integralmente no material tornado público.

Segundo a investigação, Vorcaro usava mensagens temporárias e, em algumas ocasiões, escrevia textos no aplicativo Notas, fazia capturas de tela e enviava as imagens pelo WhatsApp. A PF afirmou ter recuperado parte desse conteúdo a partir de arquivos e registros encontrados no aparelho.

“Acha que segunda já tenho que estar fora?”

Um dos trechos de maior repercussão ocorreu dois dias antes da primeira prisão de Vorcaro. Em 15 de novembro de 2025, o ex-banqueiro perguntou a Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.

Na mesma sequência, questionou se o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, sabia do que estava ocorrendo e perguntou: “Conseguimos fazer algo?”. No dia seguinte, Vorcaro voltou a procurar o ministro e perguntou se havia chance de uma operação ocorrer na manhã seguinte.

A PF interpretou essas mensagens como indício de que Vorcaro buscava informações sobre o avanço da Operação Compliance Zero. Moraes nega ter cometido irregularidades.

“Estou online”

Na noite de 17 de novembro de 2025, minutos antes de ser preso no Aeroporto de Guarulhos, Vorcaro voltou a mandar mensagem ao contato atribuído a Moraes. “Estou online”, escreveu o banqueiro, ao informar que estava a caminho de uma viagem ao exterior.

Vorcaro foi preso pouco depois. Na manhã seguinte, a Polícia Federal deflagrou a primeira fase da Operação Compliance Zero e o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master.

“Gratidão da minha vida”

Um dia antes de perguntar se deveria deixar o país, Vorcaro enviou outra mensagem em que agradecia a Moraes.

“Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você”, afirmou. Na mesma mensagem, disse que sua família, funcionários e parceiros teriam uma “dívida de vida” com o ministro e sua família e agradeceu “por tudo”.

A PF usou o conteúdo, em conjunto com outros registros, para sustentar que havia uma relação próxima entre os dois.

Contrato com escritório da mulher de Moraes

O relatório também menciona um contrato de cerca de R$ 130 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Segundo a PF, registros digitais indicariam que Moraes participou da análise de versões do documento.

O escritório afirmou que o ministro foi consultado apenas para verificar se havia impedimento jurídico para a contratação e que, como não foi identificado obstáculo, o acordo foi firmado.

A investigação encontrou ainda um segundo contrato, de R$ 50 milhões, entre o escritório e uma empresa ligada a Vorcaro. Mensagens analisadas pela PF indicam que parte do pagamento chegou a ser discutida por meio da entrega de cotas de um avião e de um helicóptero.

Encontros e eventos

A PF também encontrou registros que, segundo a corporação, indicam uma série de encontros entre Moraes e Vorcaro entre 2023 e 2025.

Em uma das situações, Vorcaro orientou funcionários a preparar uma recepção “ultra VIP” para uma visita atribuída a Moraes em Campos do Jordão.

Outras mensagens tratam da organização de eventos jurídicos ligados ao Master em Londres. De acordo com a PF, os diálogos indicam que nomes de convidados teriam sido submetidos à avaliação do ministro e que Vorcaro mencionava a necessidade de “aprovar com Alexandre” determinadas participações.

O que o STF vai decidir

As mensagens não serão analisadas isoladamente.

Antes de discutir se o conteúdo justifica a abertura de uma investigação contra Moraes, o plenário deverá enfrentar o pedido da PGR para anular o relatório da Polícia Federal.

A Procuradoria argumenta que André Mendonça determinou a produção do documento sem pedido prévio do Ministério Público ou da própria PF e sem submeter a medida anteriormente ao plenário.

Caso a nulidade seja acolhida, o STF poderá encerrar o caso sem avançar sobre o mérito das mensagens. Também há ministros que avaliam que, mesmo nessa hipótese, os elementos já conhecidos podem ser discutidos para decidir se uma nova investigação deve ou não ser aberta.

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