O surgimento de novos casos do vírus Nipahn, na Índia, acendeu um alerta de saúde global e levou diversos países asiáticos a retomarem protocolos sanitários rigorosos.
Em meio aos temores quanto à possibilidade de uma crise em escala global, autoridades de Tailândia, Nepal e Taiwan, que fazem fronteira com a Índia, não hesitaram ao adotar medidas de segurança nos aeroportos semelhantes aos protocolos durante a pandemia de Covid-19 – visando conter, sobretudo, a disseminação do patógeno que, apesar da baixa transmissibilidade entre humanos, possui uma taxa de letalidade alarmante.
Histórico do vírus
Em entrevista à CNN, o infectologista Renato Kfouri explicou que o Nipah é um vírus zoonótico descoberto há cerca de 30 anos na Malásia.
Segundo o especialista, o reconhecimento do morcego frugívoro como principal agente transmissor decorreu de observações em comunidades locais. “Foi observado inicialmente em uma comunidade que provavelmente consumia água contaminada de um poço, e aí reconheceram o morcego como principal agente transmissor dessa doença”, afirma Kfouri.
Além do contato direto com morcegos, a transmissão pode ocorrer pelo consumo de alimentos contaminados ou pelo contato com animais infectados, como porcos.
Temor em meio à alta letalidade
Hoje, a maior preocupação das autoridades de saúde está na potencial gravidade da doença. Estimativas da OMS (Organização Mundial da Saúde) apontam que a taxa de mortalidade varia entre 40% e 75%.
O infectologista Renato Kfouri reforça a gravidade do cenário: “Mais ou menos dois terços de quem adquire esse vírus acaba vindo a óbito”. O vírus pode causar desde sintomas leves, como febre e dor de cabeça, até quadros de encefalite fatal e complicações respiratórias graves.
Apesar do perigo individual, o risco de uma pandemia global é considerado reduzido em comparação a vírus respiratórios comuns, a exemplo do Covid-19. De acordo com Kfouri, “o vírus não adquiriu até o momento nenhuma grande capacidade de transmissão de pessoa a pessoa e, portanto, o risco de uma pandemia ou de uma disseminação é muito menor do que um vírus de transmissão respiratória”. A transmissão entre humanos é rara, restringindo-se geralmente a contatos domiciliares próximos ou a profissionais de saúde que cuidam de pacientes infectados.
Quais são os sintomas?
De quadros assintomáticos a complicações fatais, o vírus Nipah apresenta um espectro clínico preocupante. Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), a infecção pode evoluir rapidamente, afetando prioritariamente os sistemas respiratório e neurológico.
Primeiros sinais e progressão
Os sintomas iniciais assemelham-se aos de uma gripe forte, o que exige atenção redobrada. O paciente costuma apresentar:
- Febre alta e dores de cabeça;
- Mialgia (dores musculares) e dor de garganta;
- Vômitos e mal-estar geral.
À medida que a doença avança, o quadro pode se agravar para uma pneumonia atípica ou insuficiência respiratória aguda, condição em que os pulmões perdem a capacidade de oxigenar o organismo adequadamente.
Comprometimento neurológico
O maior risco do Nipah reside na sua capacidade de inflamar o cérebro (encefalite aguda). Sinais como tontura, sonolência excessiva e confusão mental são alertas críticos. Em casos severos, o paciente pode sofrer convulsões e entrar em estado de coma em apenas 24 ou 48 horas.
O impacto a longo prazo: embora muitos sobreviventes da encefalite consigam se recuperar, as estatísticas indicam que cerca de 20% dos pacientes permanecem com sequelas neurológicas residuais, como alterações de personalidade ou distúrbios convulsivos permanentes.
Monitoramento e prevenção
Atualmente, não existe vacina ou tratamento específico para o Nipah, o que torna o isolamento e a vigilância as ferramentas mais eficazes. Kfouri destaca que as características do vírus e de seu hospedeiro natural dificultam uma chegada em larga escala a outras regiões: “Nós estamos falando de um vírus cuja principal forma de transmissão é a picada do morcego, ou seja, esses morcegos que comem frutas nem são muito frequentes aqui entre nós”.
Entretanto, o especialista alerta para a necessidade de atenção constante em um mundo interconectado. “Nesse mundo globalizado, ninguém está 100% seguro enquanto tivermos doenças circulando em alguma região. Os deslocamentos populacionais são cada vez mais frequentes, o encurtamento dessas distâncias, a gente atravessa o globo hoje em menos de 24 horas”, observa.
Neste surto mais recente, a Índia confirmou a infecção de profissionais de saúde que apresentaram complicações neurológicas rápidas. Embora o governo indiano busque acalmar a população afirmando que a situação está sob controle e que centenas de contatos testaram negativo, a OMS mantém o Nipah como um patógeno prioritário para pesquisa, dado o seu potencial de causar emergências de saúde pública.,
Vírus Nipah pode chegar ao Brasil?
No Brasil, o Ministério da Saúde mantém protocolos de vigilância contínua para lidar com agentes patogênicos altamente perigosos, como o Nipah.
O país também trabalha em estreita colaboração com instituições como a Fiocruz e o Instituto Evandro Chagas, além de contar com o apoio da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e da OMS. De acordo com o Ministério da Saúde, não há nenhum indicativo de risco para a população brasileira e a situação continua sendo monitorada de perto.
A transmissão ocorre principalmente por meio da ingestão de alimentos contaminados por secreções de morcegos frutíferos, que são os principais vetores do vírus. Esses morcegos, no entanto, não habitam o Brasil, o que diminui a probabilidade de um surto local. Embora a transmissão humana seja rara, pode ocorrer por contato direto com pessoas infectadas ou superfícies contaminadas.
Apesar do debate sobre um eventual cenário de defesa sanitária frente ao avanço do vírus, a infectologista Rosana Ritchamann pondera que, neste momento, o assunto deve se restringir às autoridades de saúde.
“Aqui para o Brasil o recado maior é para as autoridades sanitárias, não para o cidadão comum. Não tem nenhum motivo para ficar preocupado. Agora é uma questão para as nossas autoridades sanitárias já começarem a pensar eventualmente, sob suspeita clínica de alguém que viajou, retornou dessa região, sobre como manejar este caso. Desde questões como medidas de isolamento, período de incubação, é preciso ter um programa de enfrentamento, caso tenha surja uma suspeita do vírus por aqui”, enfatizou.