Centenas de milhares de civis na Ucrânia enfrentam vários dias de frio extremo com pouquíssimo aquecimento e iluminação, após ataques contínuos de drones e mísseis russos contra a infraestrutura energética do país.
Na capital, Kiev, são esperadas temperaturas bem abaixo de zero e ventos cortantes por pelo menos mais quatro dias.
“Precisamos superar os próximos dias, que serão muito difíceis para Kiev”, disse neste domingo (8) o prefeito da cidade, Vitaliy Klitschko. “Fortes geadas estão novamente previstas na capital, especialmente à noite”, afirmou em mensagem no Telegram.
Klitschko disse que a infraestrutura energética da Ucrânia está em uma “situação extremamente difícil” e que deu instruções para que os chamados “pontos de aquecimento” comunitários, abastecidos por geradores, estejam plenamente operacionais. Além disso, alguns desses abrigos permitem que as pessoas passem a noite.
Segundo o Ministério da Energia, os moradores da capital estão recebendo eletricidade por apenas uma hora e meia a duas horas por dia.
Durante um ataque russo no início de janeiro, um morador de Kiev que vivia em um apartamento no último andar de um prédio de 16 andares comentou que ele e a esposa ficaram sem aquecimento, eletricidade e água.
O ataque seguinte atingiu a usina que fornecia calor ao edifício, assim como a outros 1.100 prédios da capital. Segundo o cidadão, cerca de metade dos moradores deixou o prédio, incluindo sua família.
A temperatura média no apartamento caiu para apenas 3 graus Celsius, acrescentou.
Os habitantes foram informados de que os reparos poderiam levar até dois meses — durante a parte mais fria do ano.
Empresas também sofrem. A rede de salões Backstage Beauty afirmou ter investido US$ 400 mil em sistemas de reserva, incluindo geradores, combustível e baterias. Ainda assim, um drone atingiu uma de suas unidades, rompendo um cano de aquecimento e inundando o local.
“Apesar de todo esse investimento, as condições climáticas e os ataques russos prevalecem sobre o sistema”, publicou a empresa no Instagram no sábado.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, compartilhou no Telegram no domingo: “Quase todos os dias, os (russos) atacam instalações de energia, infraestrutura logística e prédios residenciais… Somente nesta semana, a Rússia lançou mais de 2.000 drones de ataque, 1.200 bombas aéreas guiadas e 116 mísseis de vários tipos contra nossas cidades e vilarejos.”
A Ukrenergo, operadora da rede elétrica nacional, enfatizou que continua lidando com as consequências de dois grandes ataques com mísseis e drones contra a rede elétrica nesta semana.
“O nível de escassez de energia e os danos às redes de transmissão e distribuição de eletricidade atualmente impedem o fim dos apagões emergenciais na maioria das regiões”, disse, acrescentando que os trabalhos de reparo tornaram os cortes menos severos em algumas áreas.
“Os trabalhos de restauração continuam tanto nas usinas quanto nas subestações de alta tensão que fornecem energia às usinas nucleares”, completou.
Outra operadora de energia ucraniana, a DTEK, informou no sábado que danos às subestações de alta tensão causaram uma redução na produção das usinas nucleares, resultando em uma perda significativa de eletricidade disponível.
Os ataques russos mais recentes ocorreram após uma moratória de curta duração sobre ataques mútuos à infraestrutura energética, acordada com incentivo dos Estados Unidos.
Zelensky afirmou que Washington propôs “que ambos os lados voltem a apoiar a iniciativa do presidente dos EUA de desescalada no setor energético. A Ucrânia concordou, mas a Rússia ainda não respondeu”.
O Instituto para o Estudo da Guerra, com sede em Washington, declarou no sábado: “O fato de a Rússia ter realizado duas séries de ataques com mais de 400 projéteis em um intervalo de seis dias após o fim da moratória demonstra a determinação do Kremlin em maximizar o sofrimento da população civil ucraniana e sua falta de disposição para desescalar a guerra ou avançar seriamente nas negociações de paz iniciadas pelos EUA.”
“As forças russas também modificaram seus drones e mísseis para causar mais danos, inclusive equipando drones Shahed com minas e munições de fragmentação, e essas medidas afetaram de forma desproporcional a infraestrutura civil e energética”, acrescentou o instituto.
As consequências dos ataques russos são agravadas em muitas áreas urbanas pela dependência de sistemas de aquecimento centralizado, um legado da era soviética.
O calor é gerado em usinas térmicas ou de cogeração antes de ser distribuído, de modo que, quando essas instalações são atingidas, muitos blocos residenciais são afetados.
A destruição de tubulações de aquecimento central pode impactar um bairro inteiro. Quando as temperaturas caem abaixo de zero, um apagão prolongado pode levar ao rompimento de tubulações subterrâneas se a água em seu interior congelar.
Alguns analistas observam que os planejadores militares russos tentam explorar essa vulnerabilidade ao escolher seus alvos.
“Acho que os militares russos estão sendo aconselhados por seus especialistas em energia, que explicam como causar o máximo de dano ao sistema energético”, afirmou em 2022 o CEO da DTEK, Maxim Timchenko.