Em entrevista à CNN, o professor da UFF e pesquisador de Harvard, Vitelio Brustolin, afirmou que Donald Trump deseja ser lembrado como o presidente que ampliou o território dos Estados Unidos ao buscar anexar a Groenlândia. O especialista explicou que esta aspiração territorial vai além de necessidades militares estratégicas.
De acordo com Brustolin, os Estados Unidos já possuem acordos militares que permitem a presença de tropas americanas na Groenlândia. “Para fins militares, os Estados Unidos já podem colocar tropas, inclusive instalar o sistema domo de ouro que Trump vem aventando, em território da Groenlândia”, explicou. Ele destacou que existe um acordo firmado em 1951 entre Estados Unidos e Dinamarca, atualizado em 2004, que já permite essa presença militar na região.
O especialista revelou que o interesse americano pelo território não é recente. “Em 1946, os Estados Unidos ofereceram US$ 100 milhões em ouro à Dinamarca pela compra da Groenlândia”, afirmou Brustolin. Ele lembrou também que, durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos controlaram a Groenlândia de 1941 até 1945, construindo duas bases aéreas na região que posteriormente se transformaram nos principais aeroportos do território.
Forte oposição interna nos EUA
Apesar do interesse de Trump, Brustolin destacou que a ideia enfrenta forte resistência interna. “Quase 80% da população dos Estados Unidos é contra a anexação desse território”, apontou. O especialista acrescentou que congressistas americanos, incluindo republicanos como Mitch McConnell, líder do partido no Senado, e o deputado Don Bacon, se opõem à proposta.
Para qualquer ação militar na Groenlândia, Trump precisaria de liberação de recursos do Congresso, o que, segundo Brustolin, seria improvável de acontecer. “O Congresso claramente não está disposto a liberar recursos militares para uma empreitada como essa”, afirmou.
Questões estratégicas e econômicas
O professor destacou o valor econômico da Groenlândia, especialmente em relação às terras raras. “A Groenlândia tem entre 36 e 42 milhões de toneladas de óxidos de terras raras e 1,5 milhão de toneladas estariam exploráveis nesse momento”, explicou Brustolin.
Segundo o especialista, para a exploração desses recursos, seria necessário um acordo entre Estados Unidos e Dinamarca, com participação da Groenlândia, provavelmente por referendo.
Brustolin concluiu que uma compra negociada do território seria teoricamente possível, mas exigiria aprovação por referendo da população local, que desde 2009 tem direito semi-autônomo de direção do território. Porém, pesquisas indicam que 85% da população da Groenlândia se opõe à aquisição do território pelos Estados Unidos.