Representantes de mineradoras com projetos de minerais críticos no Brasil sinalizaram disposição para avançar em etapas de agregação de valor no país e discutiram com investidores internacionais a possibilidade de desenvolver fases mais complexas da cadeia produtiva desses insumos.
As conversas ocorreram ao longo da semana durante o PDAC (Prospectors & Developers Association of Canada), maior evento de mineração do mundo, realizado em Toronto.
Como mostrou a CNN, o setor chegou ao encontro com um portfólio de 35 oportunidades de investimento em projetos minerais no Brasil, que somam um potencial estimado de US$ 5,5 bilhões, cerca de R$ 28,5 bilhões na cotação atual.
Ao menos oito dessas iniciativas incluem investimentos em capacidades industriais de processamento de minerais críticos, sobretudo terras raras e grafite.
Embora esses projetos ainda não representem as etapas mais avançadas da cadeia produtiva, como a fabricação de ímãs permanentes ou baterias, tratam-se de fases industriais que hoje poucos países dominam fora da China.
Executivos do setor afirmam que o mercado global desses materiais ainda é amplamente dominado pelos chineses, mas avaliam que a reorganização das cadeias produtivas pode abrir espaço para novos polos industriais.
Um dos projetos que têm despertado atenção de investidores é o da Meteoric Resources, mineradora australiana responsável pelo Projeto Caldeira, em Minas Gerais, considerado um dos mais promissores depósitos de terras raras do mundo.
A empresa já opera uma planta-piloto no estado e produz, em escala de testes, o chamado carbonato misto de terras raras, um produto intermediário obtido após o processamento químico do minério, que concentra diferentes elementos de terras raras antes das etapas finais de separação individual.
Recentemente, a companhia enviou uma amostra desse material para o MagBras, iniciativa nacional voltada ao desenvolvimento da cadeia produtiva de ímãs de terras raras no Brasil.
O projeto reúne instituições como o SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e conta com apoio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
O material será utilizado em uma planta de demonstração dedicada à produção de ímãs permanentes, considerados essenciais para tecnologias como motores elétricos, turbinas eólicas e diversos equipamentos eletrônicos.
Durante o PDAC, a Meteoric também apresentou oportunidades de investimento ligadas à construção de uma planta industrial de processamento baseada no método de lavagem com sulfato de amônio em circuito fechado.
Esse tipo de instalação utiliza uma solução química de sulfato de amônio para extrair os elementos de terras raras presentes em argilas iônicas, tipo de depósito encontrado em Minas Gerais.
O sistema em circuito fechado permite reutilizar os reagentes e a água ao longo do processo, reduzindo o consumo de insumos e os impactos ambientais.
Outra empresa que esteve no Canadá em busca de investidores foi a australiana St George Mining, responsável pelo Projeto Araxá, também em Minas Gerais. O empreendimento é considerado promissor por combinar mineralizações de nióbio e terras raras na mesma área.
Em 2025, a companhia anunciou a criação de um centro tecnológico em parceria com o CEFET-MG (Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais), em Araxá, incluindo uma planta-piloto dedicada ao processamento desses minerais.
Apesar do interesse em avançar na cadeia produtiva, executivos do setor destacam duas limitações importantes.
A primeira é que, na maioria dos casos, as mineradoras não são responsáveis pela fabricação dos produtos finais em que esses minerais são utilizados.
O lítio, por exemplo, é matéria-prima fundamental para baterias de veículos elétricos e dispositivos eletrônicos, mas a fabricação dessas baterias ocorre em indústrias químicas e tecnológicas, e não nas próprias mineradoras.
“Não dá para pedir para quem planta milho fazer a pamonha”, brincou um executivo de uma grande empresa do setor.
Ainda assim, especialistas afirmam que existe espaço para o Brasil avançar em etapas intermediárias mais complexas da cadeia, como o refino de compostos químicos de alta pureza.
A CBL (Companhia Brasileira de Lítio), por exemplo, já opera no país uma refinaria capaz de produzir compostos de lítio com grau de pureza de até 99,5%, padrão conhecido como battery grade, utilizado na fabricação de baterias.
Outro ponto frequentemente citado por empresários é que a agregação de valor depende de políticas públicas capazes de reduzir riscos e aumentar a competitividade dos projetos.
Segundo executivos ouvidos pela CNN, trata-se de um mercado volátil e concentrado, em que a forte presença da China nas etapas de refino e fabricação pode provocar oscilações de preço significativas.
Por isso, representantes do setor defendem que, se o governo brasileiro quiser avançar de fato na industrialização desses minerais, será necessário tratar o tema como uma estratégia de Estado, à semelhança do que já fazem países como Austrália e Estados Unidos, que adotam incentivos fiscais, financiamento público e políticas industriais voltadas aos minerais críticos.
*O repórter viajou a convite da ADIMB (Agência para o Desenvolvimento e Inovação do Setor Mineral Brasileiro)