Há 14 mil anos, na Região Sul da Sibéria Ocidental, na Rússia, um filhote de lobo de dois meses de idade devorou um pouco de carne de rinoceronte-lanudo. Momentos depois, sua toca subterrânea desabou, matando o filhote e sua irmã.
O conteúdo do estômago do lobo, congelado no permafrost junto com seu corpo, permitiu aos cientistas sequenciar o DNA de um dos últimos rinocerontes-lanudos conhecidos, um gigante cornudo da Era do Gelo que viveu ao lado dos mamutes. Aa novas descobertas a partir da última refeição do lobo estão revelando pistas sobre por que o rinoceronte-lanudo foi extinto.
A pesquisa, publicada na quarta-feira na revista científica Genome Biology and Evolution, representa a primeira vez que cientistas conseguiram sequenciar o genoma inteiro — todo o código genético — de um animal encontrado no estômago de outro animal, segundo o coautor Camilo Chacón-Duque, bioinformatista da Unidade de DNA Antigo do SciLifeLab, na Universidade de Uppsala, na Suécia.
“Ficamos muito empolgados porque existem pouquíssimos fósseis desse período em que o rinoceronte-lanudo foi extinto”, disse Chacón-Duque, que anteriormente foi pesquisador no Centro de Paleogenética da Universidade de Estocolmo, onde o estudo foi conduzido.
Ainda coberto de pelos, o filhote de lobo mumificado foi encontrado enterrado no permafrost perto da vila de Tumat, em 2011. Uma autópsia posterior revelou um pequeno fragmento de tecido preservado em seu estômago. Os cientistas conseguiram extrair DNA desse tecido, que tinha 14.000 anos, e o sequenciamento revelou que ele pertencia a uma espécie de rinoceronte-lanudo conhecida como Coelodonta antiquitatis.

Chacón-Duque disse que os pelos no tecido do rinoceronte-lanudo ainda estavam intactos, sugerindo que o filhote mal havia começado a digerir a refeição antes de morrer.
“Pela análise morfológica, parece claro que eles foram simplesmente soterrados vivos. Eles morreram instantaneamente, e foi assim que conseguiram ser preservados”, disse ele. “Acho que não houve tempo suficiente para que o sistema digestivo realmente penetrasse os tecidos.”
A irmã do filhote de lobo foi encontrada posteriormente, em 2015, e nenhum dos dois apresentava sinais de ataque ou ferimentos. Um estudo publicado no ano passado observou que eles provavelmente morreram quando sua toca subterrânea desabou como resultado de um deslizamento de terra. Esse estudo sugeriu que lobos seriam capazes de caçar rinocerontes-lanudos juvenis. Rinocerontes-lanudos adultos teriam tamanho semelhante ao das maiores espécies de rinocerontes vivos atualmente.
Com seus longos pelos, o rinoceronte-lanudo estava adaptado a condições frias e viveu por toda a Eurásia setentrional durante a última Era do Gelo. Seu território começou a se contrair gradualmente para o leste a partir de 35.000 anos atrás, segundo o estudo, mas ele persistiu no nordeste da Sibéria e presumia-se que tivesse sido extinto em algum momento após 18.400 anos atrás.
Embora fósseis de rinoceronte-lanudo sejam relativamente comuns no registro fóssil, poucos restos foram encontrados do período estimado de sua extinção, e nenhum deles havia fornecido informações genéticas, tornando o conteúdo do estômago do lobo valioso para os pesquisadores.
Chacón-Duque disse que foi difícil mapear o genoma a partir da amostra de DNA do rinoceronte-lanudo porque a presença de DNA de lobo no estômago complicou as análises. Por exemplo, tanto o lobo quanto o rinoceronte tinham a mesma idade, então não foi possível usar padrões de degradação como ferramenta para identificar o DNA antigo. Em vez disso, Chacón-Duque e seus colegas usaram o parente vivo mais próximo do rinoceronte-lanudo, o rinoceronte-de-sumatra, como referência.
Depois de sequenciar a amostra, eles compararam o genoma com outros dois genomas sequenciados a partir de fósseis de rinoceronte-lanudo encontrados preservados no permafrost siberiano, datados de 18.000 e 49.000 anos atrás, respectivamente.

O permafrost preserva o DNA antigo de forma particularmente eficaz, e os cientistas já recuperaram moléculas de DNA com até 2 milhões de anos nas regiões mais ao norte do planeta.
Os três genomas permitiram que os pesquisadores examinassem como a diversidade genética da espécie — como níveis de endogamia e o número de mutações prejudiciais — mudou ao longo do tempo durante a última Era do Gelo.
O estudo não encontrou sinais de deterioração genética à medida que a espécie se aproximava da extinção, sugerindo que o rinoceronte-lanudo provavelmente manteve uma população estável e relativamente grande até pouco antes de desaparecer.
Sua extinção deve ter ocorrido de forma relativamente rápida, concluíram os pesquisadores, provavelmente como resultado do aquecimento global ao final da última Era do Gelo, que terminou por volta de 11.000 anos atrás.
“Nossos resultados mostram que os rinocerontes-lanudos mantiveram uma população viável por 15.000 anos após a chegada dos primeiros humanos ao nordeste da Sibéria, o que sugere que o aquecimento climático, e não a caça humana, causou a extinção”, disse em comunicado o coautor Love Dalén, professor de genômica evolutiva no Centro de Paleogenética.
Anteriormente, acreditava-se que os dois filhotes de lobo fossem cães domesticados precoces ou lobos domesticados. No entanto, o estudo de 2025 afirmou que não havia evidências de que os dois animais tivessem tido contato com humanos.
O trabalho foi “extremamente valioso” para compreender a história evolutiva do rinoceronte-lanudo, disse Nathan Wales, professor sênior de arqueologia da Universidade de York, no Reino Unido, que estudou os filhotes de lobo, mas não esteve envolvido na pesquisa sobre a amostra do rinoceronte-lanudo.
“Os pesquisadores sabem que essa espécie estava se aproximando da extinção naquele momento, e poderíamos supor que as últimas linhagens teriam populações pequenas e altamente endogâmicas. Mas essa análise bem fundamentada mostra que, em nível genético, a população parecia estável”, disse ele por e-mail.
“Os autores apresentaram uma conclusão razoável de que um fator externo, como uma mudança ambiental rápida, levou à extinção.”
Wales observou que plantas, insetos e uma alvéola também foram encontrados nos estômagos dos filhotes de lobo, e que seria empolgante aplicar métodos de DNA antigo a esses conteúdos alimentares também.
“Múmias preservadas no permafrost oferecem uma visão espetacular do passado. Normalmente, paleontólogos e arqueólogos só conseguem recuperar ossos, mas aqui podemos compreender melhor como esses animais se pareciam e como viviam”, disse ele. “Vestígios de suas dietas, microbiomas e ecossistemas estão diretamente associados a essas múmias, portanto elas desempenham um papel especial nas análises científicas.”