Os microplásticos são partículas minúsculas de plástico, invisíveis a olho nu, que já foram encontrados em praticamente todos os ambientes do planeta, e também dentro do corpo humano. Eles estão na água, nos alimentos, no ar e até em produtos de uso cotidiano.
Estudos recentes identificaram essas partículas em órgãos como pulmões, fígado, rins, cérebro, artérias, placentas, cordões umbilicais e até no sangue.
Apesar da crescente quantidade de pesquisas apontando a presença de microplásticos em tecidos humanos, cientistas alertam que ainda há muitas incertezas. Um grupo internacional com mais de 30 pesquisadores, liderado pelo Imperial College London e pela Universidade de Queensland, publicou um estudo na revista Environment & Health defendendo mudanças urgentes na forma como essas partículas são detectadas e medidas no corpo humano.
Segundo os autores, a ciência que estuda micro e nanoplásticos em humanos ainda está em desenvolvimento. Amostras biológicas são facilmente contaminadas por plásticos presentes no ar, nas roupas ou nos próprios equipamentos de laboratório.
Além disso, algumas técnicas têm dificuldade para diferenciar partículas plásticas de substâncias naturais do corpo, como gorduras, e certos métodos ainda destroem o material analisado, impedindo novas verificações.
Por isso, os pesquisadores alertam: encontrar “algo” no organismo não significa, automaticamente, que seja plástico, e muito menos que seja prejudicial. Eles defendem que resultados preliminares não devem ser apresentados como provas definitivas e que é essencial deixar claro o grau de certeza de cada achado.
Como solução, o grupo propõe que os estudos sobre microplásticos adotem práticas semelhantes às da ciência forense. Na perícia criminal, é comum usar vários métodos independentes para identificar fibras plásticas, controlar rigorosamente a contaminação e comunicar com clareza o nível de confiança dos resultados. A ideia é aplicar esse mesmo rigor às pesquisas biomédicas.
Os cientistas também sugerem um novo modelo para classificar os métodos laboratoriais de acordo com a força das evidências que produzem. Técnicas capazes de identificar com precisão a composição e a forma das partículas teriam maior peso, enquanto métodos indiretos ou incompletos deveriam ser usados apenas como apoio, algo que nem sempre ocorre hoje.
Enquanto o debate metodológico avança, outros estudos seguem revelando números preocupantes. Uma pesquisa da Universidade de Toulouse estimou que adultos podem inalar cerca de 68 mil microplásticos por dia apenas dentro de casas e carros. A maior parte dessas partículas tem menos de 10 micrômetros, tamanho pequeno o suficiente para penetrar profundamente nos pulmões.
A exposição ocorre principalmente por três vias: ingestão de alimentos e água contaminados, inalação de partículas suspensas no ar e, possivelmente, absorção pela pele. Uma vez dentro do corpo, os microplásticos podem circular e se acumular em diferentes órgãos.
Do ponto de vista da saúde, os efeitos ainda não estão totalmente esclarecidos, mas os sinais de alerta aumentam. Um estudo publicado em 2024 no New England Journal of Medicine associou a presença de plásticos em placas de artérias a um maior risco de infarto, AVC e morte.
Já pesquisas em laboratório e com animais sugerem inflamações crônicas, alterações hormonais, impactos no sistema imunológico e possíveis efeitos metabólicos e reprodutivos.
Além de funcionarem como corpos estranhos, essas partículas carregam aditivos químicos potencialmente tóxicos, como plastificantes e retardadores de chama. Isso amplia as preocupações sobre impactos a longo prazo, especialmente diante da exposição contínua e inevitável na vida moderna.
Organizações como a Organização Mundial da Saúde classificam os microplásticos como contaminantes emergentes. Embora reconheçam que as evidências sobre danos diretos ainda sejam limitadas, defendem mais pesquisas e ações para reduzir a exposição da população.
Especialistas também destacam que o problema vai além da ciência e envolve questões sociais, econômicas e políticas. O uso massivo de plásticos descartáveis, a dificuldade de enxergar uma ameaça invisível e os interesses da indústria dificultam respostas mais rápidas. No Brasil, por exemplo, o país ainda não aderiu a compromissos globais para reduzir a produção de plástico.